Alemanha queria ajuda dos Brics para resgatar Grécia

Jamil Chade

09 de julho de 2015 | 07h50

GENEBRA – O governo de Angela Merkel queria que a Grécia fosse socorrida por um fundo especial no FMI com a ajuda dos BRICS, e não pela UE. A informação foi divulgada pelo grupo Wikileaks, a partir de um documento que revela como o serviço de espionagem do Reino Unido interceptou conversas em 2011 dos principais assistentes de Merkel em Berlim.

A escutas revelam como o governo americano e britânico tentaram influenciar na forma pela qual o problema da crise na Grécia estava sendo resolvido pela zona do euro. Em diversos e-mails, fica claro como Londres e Washington espionaram as atividades da Alemanha no processo de resgate de Atenas e na crise da zona do euro.

Uma das conversas interceptadas foi do diretor-geral da chancelaria alemã para Assuntos Europeus, Nikolaus Meyer Landrut. O grampo ocorreu um dia antes de cúpula entre França e Alemanha para começar a definir um pacote de resgate para a Grécia, no dia 14 de outubro de 2011. O alemão, em uma conversa, resumiu o que Merkel estaria “disposta a pedir e o que estaria disposta a aceitar”.

A resistência de Merkel naquele momento era de usar as instituições europeias para financiar um resgate para a Grécia. Ela, por exemplo, “não concordaria em dar ao Mecanismo de Estabilidade Financeira da Europa uma licença para operar como banco…ou nenhum outra medida que iria exigir mudanças legislativas nos estados membros.”

Para Berlim, a opção para resgatar a Grécia seria o FMI, num fundo especial fortalecido pelos Brics. “De outro lado, os alemães apoiariam um fundo especial do FMI no qual as nações dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) colocariam recursos de forma conjunta como a meta de fortalecer as atividades de socorro na zona do euro”, indica o documento.

O FMI acabaria de fato sendo usado, mas apenas de uma forma marginal e sem a criação de um fundo especial de resgate. A revelação ainda ocorre quando justamente os líderes dos Brics se reúnem na Rússia e com o tema grego entre um dos principais pontos das preocupações mundiais.

Meyer, segundo a conversa interceptada, também insistia que a solução para a crise grega também envolveria uma maior participação do setor privado. Já naquele momento, Berlim insistia que caberia ao governo grego mostrar “como implementaria” as reformas.

Numa outra conversa gravada, três dias antes, é Merkel que aparece debatendo a Grécia. No telefonema, ela hesitava sobre qual seria a solução e admitia estar “perdida” entre um perdão da dívida e a injeção de mais dinheiro.

O temor de Merkel é que ela não sabia se Atenas conseguiria superar os problemas, mesmo com a redução da divida.

Já em 2009, numa conversa interceptada desta vez pela Agência Nacional de Segurança dos EUA, Merkel defendia que o FMI fosse reformado para que países como a China “assumam maior responsabilidade.”