Apesar dos escândalos, CBF apoia Blatter em eleição

Jamil Chade

26 de maio de 2015 | 14h55

GENEBRA – Apesar dos repetidos escândalos, a CBF votará em Joseph Blatter para mais um mandato como presidente da Fifa. A eleição ocorre na sexta-feira e Blatter é o franco favorito, mesmo diante de uma pressão internacional por uma mudança dramática na entidade e o fim do reinado turbulento de 17 anos do suíço.

Blatter vem sendo duramente atacado por cartolas europeus, clubes e governos que o acusam de ter destruído a credibilidade da Fifa. Ele é acusado de abafar escândalos de corrupção e de permitir que outros dirigentes sejam mantidos na entidade, apesar de suspeitas.

Segundo fontes em Zurique envolvidas na campanha, Blatter considera o apoio brasileiro como uma retribuição ao que ele garantiu aos cartolas brasileiros durante a Copa do Mundo, cedendo em diversos aspectos da organização para favorecer os planos brasileiros.

Durante a preparação para a Copa, porém, a Fifa havia recomendado a realização do evento em oito sedes. Mas, para atender aos interesses da CBF, de federações estaduais, governadores e de interesses partidários, a entidade cedeu aos pedidos para que doze sedes fossem construídas.

Blatter também cedeu em outro aspecto: a vontade de dirigentes e políticos de que as seleções viajassem pelo Brasil. A ideia inicial era de que o País fosse dividido em quatro regiões, onde seleções atuariam apenas em sedes que estivessem próximas. O problema é que isso acabaria fazendo com que grandes times jamais pisassem em estádios como o de Manaus ou Natal. Blatter, uma vez mais cedeu.

O cartola ainda distribuiu US$ 100 milhões para programas de desenvolvimento do futebol, em projetos liderados pela CBF. A meta é a de dar esse dinheiro para os estados da federação que justamente não foram beneficiados com a construção de novos estádios.

Opositores da campanha de Blatter chegaram a fazer circular informações de que a Conmebol estaria ameaçada de perder uma vaga para a próxima Copa, numa decisão que será tomada um dia depois da eleição. Aliados do suíço consideraram o ataque como uma tentativa de minar o apoio sul-americano a Blatter e dividir o continente.

No restante da Conmebol, porém, o compromisso é de que haveria um apoio a Blatter. Mas com a condição de que essa vaga em 2018 e 2022 não fosse perdida.

Uma alternativa levantada por Blatter seria a realização de mais jogos de Eliminatórias, uma forma de agradar a todas as confederações e, ao mesmo tempo, evitar perder votos. O suíço, porém, tem mantido sigilo sobre o que vai colocar sobre a mesa de negociações.

Na CBF, porém, o discurso é de apoio ao suíço. Em março, o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, confirmou que votaria por Blatter, chamado por ele de “companheiro”. O dirigente também afirmou que o dirigente máximo do futebol tem feito “um excelente trabalho” na Fifa.

Se durante a gestão de Ricardo Teixeira na CBF a relação entre Blatter e o brasileiro era alvo de atritos, o tom é diferente hoje. Teixeira chegou a apoiar Mohamed Bin Hammam contra o suíço na eleição passada. “Não existe necessidade de mudança”, declarou Del Nero. Hoje, o brasileiro é presidente de comissões dentro da Fifa e mesmo José Maria Marin, ex-presidente da CBF, ganhou um cargo num dos comitês.

Concorrência – Depois que o ex-jogador português Luis Figo e o holandês Michel van Praag abandonaram a corrida para a presidência da Fifa, o único concorrente a Blatter é Ali bin al-Hussein, príncipe da Jordânia e vice-presidente da Fifa. O voto brasileiro, porém, nunca esteve em seu alcance, segundo fontes próximas ao árabe.

Para fontes que apoiaram o esforço de Ali, porém, a CBF não abriu brecha para estudar outros votos simplesmente porque tinha um compromisso com Blatter. “Chegou o momento de a CBF retribuir politicamente o que Blatter os cedeu politicamente”, indicou um experiente cartola em Zurique.
Num ataque duro contra Blatter, o presidente da Uefa, Michel Platini, também deixou claro que o suíço não tem planos para a Fifa e que apenas tem chances diante das alianças que construiu.

Para ele, a Fifa não terá credibilidade enquanto Blatter for seu presidente e que o suíço vai tentar « a todos os custos » se manter no cargo. Em uma entrevista ao jornal francês L’Equipe, Platini ainda alertou que Blatter decidiu que sua vida seria a Fifa.

« Ele teme o futuro, ao ponto que ele se identifica totalmente com a Fifa », declarou Platini. « Eu entendo esse medo do vazio que Blatter deve ter. Mas se ele realmente ama a Fifa, deveria colocar a instituição acima de seus interesses pessoais », disse.

Platini saiu em defesa da candidatura de Ali. « Ele seria um grande presidente », disse o francês.

Mas nem todos os europeus seguirão Platini, principalmente aqueles que, por anos, foram aliados incondicionais de Blatter, como a federação espanhola, a belga e países do Leste Europeu, entre eles a Rússia.

Ao jornal suíço NZZ, Blatter deixou claro neste fim de semana sua convicção de que será reeleito. « Eu não posso ser parado », completou. Luis Figo retrucou, chamando Blatter de “ditador”.