Às vésperas de discursar em NY, Dilma paga parte da dívida com a ONU

Jamil Chade

25 Setembro 2015 | 09h26

ZURIQUE– Preparando-se para discursar emNova Iorque onde abre a Assembléia Geral da ONU, a presidente Dilma Rousseff libera verbas para que o Brasil não perca seu direito de voto nas Nações Unidas, o que ocorreria a partir de 1 de janeiro de 2016. Dilma fará seu discurso na segunda-feira, dia 28 de setembro.

Um total de US$ 32,1 milhões foi depositado pelo governo nas contas da entidade, o valor exato para evitar perder o voto na ONU. Na entidade, o envio do dinheiro foi considerado como um sinal de que a presidente não quer passar por uma saia-justa durante sua presença em Nova Iorque.

Mas a dívida do Brasil é bem maior e soma quase R$ 1 bilhão. O débito é inédito em sete décadas da participação da diplomacia nacional no organismo.

Planilhas internas da ONU obtidas com exclusividade pelo Estado revelam que, até 4 de agosto de 2015, a dívida brasileira com a organização atingia US$ 285 milhões. Em oito meses, o que o governo federal deve às Nações Unidas aumentou em quase US$ 100 milhões.

Em agosto, o Ministério do Planejamento, responsável pelo pagamento, admitia a dívida. Mas apresentava dados diferentes da planilha oficial da ONU. Para o governo, “as dívidas com a ONU totalizam US$ 247.554.275,22”. “O governo brasileiro informa que pretende regularizar o mais rapidamente possível o pagamento do valor devido”, afirmou na época a assessoria de imprensa do ministério.

A contribuição de governos é o que sustenta a ONU. Com o dinheiro, a entidade paga seus gastos operacionais, salários e sedes, mas principalmente organiza o resgate de pessoas, a distribuição de alimentos, construção de escolas, de hospitais e cria tribunais para julgar criminosos de guerra.

Para chegar ao cálculo de quanto cada governo deve contribuir para a ONU, se leva em conta o PIB, a renda per capta e outros aspectos sociais. Numa revisão realizada em 2011, a contribuição brasileira passou de 1,4% do total do orçamento da ONU para 2,9%, o décimo maior aportador de dinheiro no sistema.

Desde a elevação da contribuição, porém, os atrasos têm aumentado. Agora, atingiram um valor recorde. Não apenas contas antigas não foram pagas como uma reformulação do orçamento das operações de Paz da ONU fez a contribuição crescer. A desvalorização do real também contribuiu para o salto no déficit.

Para o orçamento regular da ONU, a dívida brasileira antes do depósito era de US$ 156,4 milhões. Nesse aspecto, o Brasil tem a segunda maior dívida, superado apenas pelos EUA, com contas a pagar no valor de US$ 221 milhões em relação a anos anteriores.