Auditorias revelam fraude e desperdício na ONU

Jamil Chade

14 de maio de 2015 | 05h34

GENEBRA – A ONU precisa de uma reforma urgente. Mas não se trata apenas de modificar a estrutura do Conselho de Segurança. Documentos de auditorias internas da entidade revelam o desperdício de dinheiro, a falta de uma gestão profissional em locais de crise e a proliferação de fraudes. Isso tudo em uma entidade que precisa de cada centavo para alimentar e salvar milhares de vidas.

No Mali, a missão da ONU comprou em 2013 um total de 60 motocicletas, avaliadas em US$ 248 mil. Mas os pedidos de compra e os recibos foram apenas elaborados três meses depois que as motos já haviam sido entregues. Na mesma missão, gastos total de US$ 103 mil em uma agência de viagens não contavam com a autorização do Comitê de Contratos da entidade. Em nove compras da missão totalizando US$ 96 mil, simplesmente não houve um processo de licitação.

Na Turquia, a operação para receber milhares de refugiados sírios e iraquianos também sofre de problemas de administração. Em 2014, um sistema de informática foi adquirido por US$ 56 mil, também sem licitação. O descontrole também é uma marca. Uma auditoria revelou que dezenas de refugiados conseguiram se inscrever duas vezes nos escritórios da ONU e, assim, conseguiam receber duas vezes a ajuda financeira da entidade.

Entre janeiro de 2012 e outubro de 2013, a ONU destinou US$ 2,3 milhões em ajuda financeira aos refugiados. Pelas regras, porém, esse apoio apenas poderia durar por 24 meses. Mas, em 20% dos casos avaliados, o dinheiro continuou a ser pago. Em alguns casos, refugiados já estavam recebendo a mesada por mais de 70 meses.

Em Darfur, gastos de US$ 34 milhões foram aprovados para a ONU apenas um ano depois das compras terem sido realizadas pela entidade. 15 de 30 casos de licitação não tinham documentos, como informes de avaliação das propostas ou mesmo os planos. No centro de estocagem de Nyala, a ONU jogou no lixo US$ 41 mil, depois que 500 toneladas de cimento tiveram de ser destruídas ao final de 2014 por já não terem condições de uso. O motivo: eles foram guardados em containers inapropriados. O mais curioso é que a missão não estava usando um armazéns especialmente construído para a entidade e que custou US$ 1,7 milhão.

Dos 17 armazéns com materiais para o socorro de milhões de pessoas, 14 deles não tinham sequer um controle de quem entrava e saia. Em quatro deles, câmeras de segurança foram instalados. Mas ou não estavam em operação ou ninguém assistia as imagens filmadas, no centro de controle.

Mas uma das obras emblemáticas da falta de gestão está em Kalemie. Uma ordem foi estabelecida indicando que a missão da ONU no local precisava de uma grade para se proteger. A obra que já custou US$ 90 mil começou em 2011. Mas em setembro de 2014 ainda não estava terminada e não existia sequer um cronograma das obras.

O Haiti é aqui – A crise de gestão também afeta a Missão da ONU no Haiti (Minustah) e um informe deixa claro a dimensão do descontrole. “A Minustah comprou 356 veículos, que custaram US$ 9,7 milhões, usando o restante dos fundos do orçamento pós-terremoto”, indicou o relatório.

Esses carros foram entregues em janeiro de 2012. Mas a auditoria é clara: “A Minustah não precisava desse número de carros, já que 183 deles estava em estoques em 31 de dezembro de 2012”. A ONU admite que 40 deles foram usados para substituir carros mais velhos, enquanto 100 outros foram transferidos para a Missão de Paz no Mali. Mas, em julho de 2014, “ainda havia 43 carros nos estoques”.

Para os auditores, “a compra de carros em excesso foi resultado de avaliação inadequada das necessidades atuais e futuras”. “Os 183 carros que continuaram em estoque depois de um ano da entrega foram comprados a US$ 5 milhões e se depreciaram nos estoques para cerca de US$ 3,8 milhões sem serem usados.” Segundo eles, o custo de mandar cem carros para o Haiti foi de US$ 223 mil e o transporte ao Mali mais US$ 495 mil. “Os gastos poderiam ter sido evitados”, indicou a auditoria.

A auditoria mostrou ainda que o problema não se referia apenas às compras. Num dos casos descobertos, a bateria de um carro foi trocada 9 vezes em 18 meses. No entanto, 1,4 mil serviços mecânicos não foram registrados na central de custos da ONU. Os estoques ainda revelam falta de centenas de peças e um excedente desnecessário em 500 outros itens.

Outra irregularidade surgiu no aluguel de carros pela Minustah em Santo Domingo, capital da vizinha República Dominicana. O prestador de serviço cobrou da Minustah por carros e serviços de motoristas nos sábados, domingos e feriados, quando eles não eram necessários e não estavam sendo usados pela Minustah. Nesses casos, foram cobrados US$ 181 mil a mais.

Mas antes que alguém tenha a tentação de dizer que a ONU precisaria ser fechada ou algo do gênero, eu alerto : o mundo precisa das Nações Unidas. Mas uma ONU eficiente, forte e que, ao completar 70 anos, possa cumprir seu mandato. Ao contrário do que podemos pensar, a gestão na ONU não é feita por anjos. Mas burocratas com as mesmas tentações de qualquer governo pelo planeta. Cabe, porém, uma total transparência e medidas de controle para evitar que o dinheiro que teria de alimentar um faminto vá para um esquema suspeito entre um dono de uma oficina mecânica e os funcionários.