“Avenida Brasil“

Jamil Chade

10 de setembro de 2012 | 04h50

Lí há pouco uma notícia que não deixou de me chamar a atenção: a de que as personagens Verônica (Débora Bloch), Noêmia (Camila Morgado) e Alexia (Carolina Ferraz) estão prestes a descobrir que o marido, Cadinho, tem uma conta na Suíça. Isso tudo na novela “Avenida Brasil”. Peço desculpas ao leitor, mas daqui da Suíça não tenho a possibilidade e acompanhar a novela.

Imagino que Cadinho não seja um ex-prefeito, nem ex-juiz do TRT de São Paulo e nem fiscal de renda no governo de Garotinho no Rio. Pode até ser que esse personagem esteja em dia com a Receita, que declarou suas contas na Suíça e que apenas escondia de suas mulheres.

Mas a realidade é que a combinação entre ficção, uma novela chamada Avenida Brasil e contas na Suíça não tem nada de surreal e nem de inédito, lamentavelmente para o contribuinte brasileiro. A notícia surge justamente na semana em que as autoridades suíças aceitaram devolver US$ 6,5 milhões que estavam bloqueados nas contas do ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, no banco Santander de Genebra.

Dados do Banco Nacional Suíço indicam que brasileiros teriam pelo menos US$ 6 bilhões em contas no país, apenas em recursos declarados. Isso, na avaliação de doleiros que trabalham na rota Brasil-Suíça, seria apenas a ponta de um imenso ice-berg.

Se a classe política brasileira chega a ver com glamour a possibilidade de abrir contas na Suíça, a culpa não é só deles. De uma certa forma, os bancos suíços confirmam isso. UBS e outros bancos locais contam com seus “Brazilian Desk”. Ou seja, divisões dentro dos bancos para lidar com os clientes brasileiros, atender os correntistas em português e dar conselhos sobre como se fosse um gerente de um banco local. Pior. Sem qualquer controle da origem do dinheiro.

Na investigação que levou às descobertas sobre Lalau, o ex-procurador de Genebra, Bernard Bertossa, acho suspeito que um juiz tivesse levado para a Suíça milhões de dólares em apenas dois anos e mantendo um salário que não condizia com o saldo de sua conta. No caso dos Fiscais do Rio de Janeiro, a constatação era a mesma: funcionários públicos de um país em desenvolvimento apareciam com contas milionárias do outro lado do mundo. Obviamente, os funcionários de bancos suíços jamais questionaram seus clientes como é que isso poderia acontecer.

(Sinceramente, não sei como esses funcionários brasileiros de bancos suíços conseguem dormir. Eles acabam sendo instrumentos ativos da falta de dinheiro em escolas e hospitais do Brasil, desvio esse que mantem a pobreza. Pobreza essa e que vai resultar em assaltos. Assaltos esses que vão atingir seus próprios familiares que ficaram no Brasil).

Nesses doze anos que vivo na Suíça, Lalau, Maluf, Silveirinha e seu propinoduto foram apenas alguns dos nomes públicos que surgiram em Genebra. Mas não são poucos os políticos e até donos de times de futebol que entrevistei que tiveram de conter um sorriso irônico quando digo que moro em Genebra. Perdi a conta das vezes que escutei dessas pessoas o comentário: “Ah, Genebra! Conheço…”.

Corro o risco de nunca ver a última novela que está em cartaz no Brasil. Mas achei inspirador seu nome. Talvez não tanto para um programa de tevê, mas sim para designar o fluxo de dinheiro fruto de corrupção que deixa o Brasil a cada ano para as contas em paraísos fiscais. Essa sim uma vergonhosa “Avenida Brasil”.

 

OBS: Agora, para a ficção virar realidade de uma vez por todas, faltaria só mesmo revelarem que essa tal avenida Brasil construída durante anos para levar dinheiro para fora do país teve, na realidade, parte de seu orçamento desviado……para contas na Suíça.

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