Bahrein: do Bolsa Família à Louis Vuitton

Jamil Chade

26 de março de 2011 | 07h20

GENEBRA – Enquanto manifestantes no Bahrein eram reprimidos nos últimos dias pelas forças de ordem e a ONU declarava que até cem pessoas haviam desaparecido nos últimos dias, o governo do pequeno país no Golfo Pérsico fazia um esforço diplomático para se explicar e montar uma campanha de sedução da opinião pública mundial. A monarquia mandou à ONU, em Genebra, sua superministra , Fatima Al Balooshi, responsável pelas pastas de Saúde, Assuntos Sociais e Direitos Humanos. Enquanto tentava convencer a ONU e jornalistas internacionais de que seu país estava passando por um golpe, e não uma revolução popular, a ministra distribuia sorrisos e a impressão de que a população não tinha do que se queixar. « Somos o único país do Oriente Médio que já cumpriu as metas do Milênio de redução de pobreza », argumentava. 

Ela, pelo menos, não tinha do que se queixar. Enquanto conversava, levava orgulhosamente sua bolsa Louis Vuitton que, claro, ia combinando com a carteira da mesma marca. Nada mal como imagem para a ministra de Assuntos Sociais de um país em ebulição. Entre as propostas paea acalmar a população está a introdução de um Bolsa Família. Mais inexplicável ainda eram suas respostas às acusações de que seu governo massacra a oposição, fato comprovado e condenado pela ONU. Eis os principais trechos da entrevista que me concedeu na sede da ONU:

P – A ONUacusou o seu governo de violações de direitos humanos e apontou para o desaparecimento de até cem pessoas nos últimos dias. Porque o seu governo vem tomando essas medidas diante de manifestantes que pedem reformas ?

R – Fui cobrar da ONU de onde tiraram essas informações. Nada disso ocorreu. O que vimos é que foram alguns dos manifestantes que iniciaram a violência. Usavam paus, facas e até espadas contra nossos policiais. Ainda levaram crianças para as ruas para aumentar o número de manifestantes. Nosso país é um local pacífico e as pessoas ficaram assustadas com tudo isso. Atacaram ambulâncias e até hospitais. Até agora, temos 243 policiais feridos por conta das manifestações e apenas 53 feridos entre os manifestantes.

P – Como é que, diante da acusações de uso da força pelo seu governo, a sra. aponta que há mais policiais feridos que manifestantes ? Deve ser um caso único no mundo hoje.

R – Quando as manifestações começaram, o mundo inteiro se voltou contra o Bahrein por conta da forma de respondemos. Então a decisão foi a de demonstrar que, se não usássemos força, a esperança era de que os manifestantes também não o fariam. Mas foi exatamente o contrário que ocorreu. Vendo que não havia controle, os manifestantes deixaram de ter limites.

P – Mas há acusações de que policiais chegaram a invadir hospitais para espancar manifestantes já atingidos, enquanto recusavam a entrada de novos feridos.

R – Não é nada disso. Eram os manifestantes que ocuparam os hospitais. Encontramos até armas lá.

P – Mas qual o número de mortos até agora?

R – São 19. Onze deles manifestantes, mas também quatro policiais, dois estrangeiros e dois civis.

R – Se a situação é tão boa no país, porque há então manifestações?

P – Pediam uma melhor vida e salários melhores. Oferecemos diálogo. Mas não aceitaram. Pode parecer que o Bahrein é parte da onda de revoluções que atingiu o Oriente Médio. Mas o Bahrein é diferente. Não é uma ditadura. Temos a melhor em educação e saúde do Oriente Médio. O que ocorre é que os líderes da violência tem uma agenda externa. Eles torturam e não representam povo de Bahrein.

P – A Arábia Saudita mandou soldados ao Bahrain. Foram voces quem pediram?

R – Sim, para proteger locais estratégicos.

P – Proteger contra quem ?

R – Temos informações de que essa manifestação não é apenas algo espotâneo. Temos indícios claros do envolvimento de atores estrangeiros, como o Hezbollah e um país vizinho. Deram armas e treinamento.

P – Qual país?

R – Um país vizinho.

P – Porque não se pode dizer o nome ? A sra. insinua que seria o Irã ?

R – Só posso dizer que é um país vizinho.

P – Críticos do regime alegam que um dos problemas é que, num país de maioria xiita, é uma família real sunita quem comanda. Isso é um problema ?

R – Somos uma democracia. O Parlamento é eleito e quase metade dele é compost de xiitas. Por tanto, não aceito esse argumento. Temos 19 igrejas cristãs no país, somos uma sociedade multicultural.

P – O que voces estão pensando em fazer para frear a pressão social por uma melhor vida no país?

R – Uma das propostas que estamos avaliando é justamente o que voces estabeleceram com sucesso no Brasil, que é a transferência de recursos, no mesmo estilo do Bolsa Família. Estamos avaliando como implementar essa experiência aqui.

P – A opção da monarquia desaparecer pode ser uma solução ?

R – Ninguém está pedindo isso.

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