Bastidores: Ronaldo fechou seu acordo com o Corinthians no banheiro de um hotel

Jamil Chade

15 de outubro de 2012 | 06h28

Wroclaw – Ronaldo foi uma das contratações de maior impacto comercial do futebol Brasil quando chegou no Corinthians. Transformou a lógica das contratações, abriu as portas para que clubes fizessem parcerias similares e, na prática, é o modelo que vem garantindo a permanência de Neymar e de outros jogadores no Brasil. Mas o que pouco se sabe é que o acordo foi fechado praticamente no banheiro de um hotel no Rio de Janeiro.

Segundo Andrés Sanchez, então presidente do Corinthians e hoje diretor de seleções da CBF, tudo começou ainda em junho de 2008, quando o cartola e Ronaldo se encontraram na casa de amigos comuns e o ex-presidente corinthiano lançou. “E ai, Ronaldo. Vamos jogar no Corinthians”. A resposta positiva deixou a brecha aberta para uma negociação.

Ronaldo estava treinando no Flamengo, na recuperação de sua cirurgia no joelho. Andres ligou então para Kleber Leite, naquele momento presidente do clube, questionando se o time da Gávea não ficaria com o jogador uma vez que Ronaldo estivesse recuperado. A resposta foi negativa. Mas Andrés também não informou porque estava fazendo a pergunta.

Dias depois, advogados de Ronaldo e do Corinthians começariam um diálogo que duraria meses. Depois de muita troca de propostas, reuniões, viagens entre Madri e São Paulo e meses de uma negociação, um email chegou à caixa de correio do ex-presidente no dia 7 de dezembro de 2008 com a informação nada positiva: o processo havia naufragado.

A diferença entre o que o Corinthians podia pagar e o que os advogados de Ronaldo pediam era brutal, principalmente diante da presença do time na segunda divisão e, segundo seu ex-presidente, com sérios problemas até para pagar as contas de luz do clube. Andres admitia que não tinha como pagar o que Ronaldo pedia por salário.

No dia seguinte, o cartola estava num evento da CBF para a entrega da premiação de 2008 e via que seu telefone tocava insistentemente. Mas evitou atender. Alguem em sua mesa o avisaria que era Ronaldo quem estava tentando falar com ele. Para o ex-craque, o fiasco na negociação entre os advogados não significava que o caso estava encerrado.

Os dois combinaram de se encontrar no dia seguinte, as 7.30 da manhã em um hotel, cada um deles munido de seus advogados. Ronaldo chegou de chinelo e bermudão. De um lado da mesa, Ronaldo e Fabiano Farah, seu principal representante comercial. De outro, Andrés e os advogados do Corinthians.

Uma vez mais, uma guerra. Advogados apresentando propostas, debatendo a situação e numa conversa que parecia que apenas confirmaria o fracasso da negociação. Foi nesse momento que Andres e Ronaldo se olharam e disseram: “vamos fumar no banheiro”.

A situação não podia ser mais constrangedora. Cada vez que um hóspede do hotel entrava no banheiro, o ex-craque e o cartola escondiam o cigarro. Não foram poucos os hóspedes que se surpreenderam com a presença dos dois no banheiro.

Mas foi nesse momento que Ronaldo avisou a Andres: volte na mesa e ofereça algo. O cartola insistia que não tinha mais o que dizer e que o clube estava longe do que o craque pedia. “Esquece, Ronaldo”, dizia Andrés.

De volta ao local público, Andrés deu alguns minutos e disse: o Corinthians pode oferecer R$ 400 mil de salário, muito menos que Ronaldo pedia. Mas bem acima dos R$ 160 mil que era na época o salário mais alto pago no clube. Mas oferecia ao jogador até 80% da renda nos patrocínios de algumas das áreas da camisa do time, como na manga. A resposta de Ronaldo não poderia ser mais contundente: “sou jogador do Corinthians”.

O primeiro jogo de Ronaldo pelo Corinthians ocorreria no dia 4 de março de 2009, num jogo da Copa do Brasil. O primeiro gol sairia quatro dias depois. Naquele ano, o time seria campeão do Paulista e da Copa do Brasil. A parceria duraria até fevereiro de 2011. Mas o padrão estabelecido mudaria o comportamento dos clubes sobre como trazer craques ao Brasil.

Ronaldo sairia do Corinthians com uma renda de 11 milhões de euros e o Corinthians com uma jogada de marketing que transformou as finanças do clube, mesmo que no momento de assinar todos os lados admitiam: estavam arriscando alto. O Corinthians havia oferecido acordos de marketing a Ronaldo sem saber se as empresas comprariam a ideia. Mas também sem saber se Ronaldo estaria em forma para voltar a jogar. Ronaldo aceitou sem saber se receberia mais que o salário que estava acordado. Os contratos vieram, os gols vieram e os lucros também.

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