Bem-vindo à Europa. Mas pode chamar de América Latina…

Jamil Chade

01 de agosto de 2013 | 19h37

Há treze anos vivo na Europa e por muito tempo já vinha desconfiando seriamente que eles aqui podem até ter uma renda bem maior que a nossa, um sistema de educação melhor que o nosso, hospitais “padrão Fifa”, além de ternos mais elegantes que o que nós vemos em nossos países na América Latina. Mas, hoje, confirmei uma outra velha impressão que eu também tinha: os políticos europeus são tão hipócritas quantos os nossos.

Nesse primeiro de agosto de um calor fora do comum na Europa, não foi apenas a temperatura que fazia com que o clima se parecesse com a América Latina.

Tudo começou em Madri, no início do dia. O presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, foi ao Parlamento explicar o inexplicável: o fato de ter recebido mais de 300 mil euros em um caixa 2 de seu ex-tesoureiro. Uma espécie de “Mensalón” espanhol.

Depois de muito hesitar em dar uma explicação à nação, acabou cedendo. Tomou o microfone para dizer algo que acredito que eu já tinha escutado antes em outra língua e em outro país: que ele foi traído.

Não disse exatamente com essas palavras. Mas deixou claro que errou ao confiar em alguém que não se poderia confiar – seu ex-tesoureiro, Luis Bárcenas. A oposição pediu uma CPI e sua demissão. Mas Rajoy simplesmente rejeitou os pedidos e continuará governando (acho que também me lembro dessa parte do roteiro em outro país).

Sua audiência ainda teve um toque de comédia. Enquanto pronunciava um discurso que certamente não havia sido preparado por ele, Rajoy lia até mesmo as indicações que foram colocadas no texto por seus assessores e que, claro, não deveriam ter sido lidas.

A melhor delas foi “fin de la cita”, ou “fim da citação”, que aparecia ao final de alguns parágrafos que traziam frases de outros políticos. Rajoy, como se estivesse lendo um texto que não era dele e sem saber o que dizia, insistia em dizer ao final de cada parágrafo: “fin de la cita”.

Deputados não conseguiam segurar as gargalhadas, enquanto as redes sociais explodiram com a gafe de Rajoy.

Mas o dia não terminaria apenas com uma boa gargalhada. Quando as bolsas já tinham fechado, eis que a Corte de Cassação da Itália anuncia que o eterno Silvio Berlusconi, ex-cantor em cruzeiros e quatro vezes primeiro-ministro, estava condenado por fraude fiscal.

Logo pensei: olha só, aqui pelo menos um político é mesmo condenado.

Ah, mas quanto engano. Sim, a decisão do tribunal seria um fato histórico, se não fosse uma vez mais permeado por toques insistentes de surrealismo e do realismo mágico de Gabriel Garcia Marquez.

Sim, Berlusconi foi condenado. Mas, como tem mais de 70 anos e esse seria supostamente seu primeiro crime, a pena de quatro anos de prisão fica reduzida a apenas um ano e, ainda assim, em sua casa. Ou seja, o magnata passará um ano em um de seus palácios (ele pode escolher qual) e não paga multa pela fraude fiscal que cometeu. Isso tudo previsto na lei italiana.

O dia ainda reservaria uma nova surpresa. Condenado, Berlusconi sairia em rede nacional para explicar à nação o que havia ocorrido com ele, quase como uma vítima. Na verdade, foi o único a sair em rede nacional.

Com um terno impecável, com um discurso na ponta da língua, maquiado e com a bandeira da Europa e da Itália como cenário, Berlusconi anunciou com a pompa de um chefe-de-estado: relançava seu partido na vida política italiana.

Claro! Como é que eu não pensei nisso?! Com todos os recursos legais esgotados e condenado em todas as instâncias, nada melhor que uma manobra política para se salvar.

Não estou muito seguro que, desta vez, a manobra de Berlusconi seja suficiente. Mas não deixou de ser um gesto tipicamente de um caudillo derrotado e desesperado.

Enfim, a Europa pode ter muito a nos ensinar no Brasil e no resto da América Latina. E tem mesmo. Mas me divirto lembrando da quantidade de analistas, cientistas políticos e mesmo políticos que entrevistei aqui na Europa nessa última década e que falavam da corrupção na América Latina como um elemento típico de sociedades atrasadas, sem cultura, sem democracia e sem futuro.

Baseado no show de hipocrisia que a Europa acompanhou hoje, posso afirmar a qualquer um que me peça uma explicação sobre o Velho Continente: bem-vindo à Europa. Mas pode chamar de América Latina.

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