Cardeal de SP vai supervisionar ações do Banco do Vaticano

Jamil Chade

16 de fevereiro de 2013 | 13h19

Caberá ao brasileiro dom Odilo Pedro Scherer uma das tarefas mais delicadas no próximo pontificado: vigiar a atuação do Banco do Vaticano. Hoje, a Igreja anunciou que ele vai manter seu cargo como um dos membros da Comissão Cardinalícia de Vigilância, que irá justamente avaliar as denúncias de corrupção e desvios de dinheiro no Banco do Vaticano. A Igreja amplia ainda mais as polêmicas ao reconfirmar também o cardeal Tarcísio Bertone como presidente da Comissão.

Nesta semana, a Igreja abriu uma nova polêmica ao anunciar o novo CEO da Instituição de Obras Religiosas, o nome oficial do banco. Isso porque o escolhido é acionista de um estaleiro que produziu navios de guerra, inclusive fornecendo no passado ao governo de Adolf Hitler.

O cargo estava vago porque, em maio, o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi, um amigo pessoal do papa, foi sumariamente demitido. Na época, o Vaticano deu a entender que o banqueiro estava relacionado com o vazamento dos documentos roubados pelo mordomo do papa e que revelavam a corrupção na Igreja.
Mas, poucos dias depois, a polícia italiana encontrou em sua casa uma carta que era para ser lida caso ele fosse assassinado. Durante seus três anos no comando dos cofres do Vaticano, ele teria descoberto que as contas eram usadas para a lavagem de dinheiro e mesmo crime.

A pressa na nomeação de seu sucessor fez despertar suspeitas de que não teria sido nem mesmo o papa quem o nomeou, e sim o cardeal Tarcísio Bertone, protagonista da disputa interna. Fontes no Vaticano sustentam a tese de que, com a nomeação, o italiano teria garantido um aliado seu no cargo, antes da chegada de um novo papa. Agora, Bertone garante que ele mesmo vai continuar a fiscalizar o banco. “Ao fazer a nomeação, podemos evitar ver coisas que não são verdades sendo ditas”, disse o cardeal Jose Saraiva Martins.

Não é a primeira vez que o Banco do Vaticano é envolvido em escândalos. Em 1982, o então banqueiro Roberto Calvi, com ampla relação com o Vaticano, foi encontrado enforcado numa ponte de Londres. Em 2010, juízes de Roma congelaram 23 milhões de euros que o Banco mantinha em contas na Itália. O dinheiro acabou sendo liberado, mas a investigação por lavagem de dinheiro continua.

Há sete meses, a União Europeia alertou que o Banco do Vaticano não cumpre as regras básicas do sistema financeiro para o combate à lavagem de dinheiro e crimes financeiros.

A crise envolvendo o banco foi apontada como um dos motivos para a renúncia do Papa. Mas em uma entrevista realizada há dez semanas pelo Papa Bento XVI com seu biografo, o jornalista alemão Peter Seewald, o pontífice já havia alertado: “não se pode mais esperar mais nada de mim”. Seewald admitiu que, no encontro, o Papa parecia mais desanimado que nunca, mas negou que os escândalos de corrupção tenham influenciado em sua decisão de abandonar o cargo.

“Ratzinger estava esgotado há muito tempo”, disse seu biógrafo, em artigo publicado ontem na revista alemã Focus. Quando foi questionado sobre o que se poderia esperar dele no restante de seu pontificado, Bento XVI foi taxativo: “De mim? Não muito. Ja sou um homem velho, as forças me abandonaram. Acho que basta com o que fiz até agora”.

Hoje, em um encontro que já havia sido planejado há meses com o presidente da Guatemala, Otto Pérez Molina, o Papa o garantiu que a renuncia foi uma decisão “muito difícil”, mas ainda assim seria uma “reta” para a Igreja.

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