Cartolas eternos

Cartolas eternos

Jamil Chade

06 de junho de 2014 | 12h06

São Paulo – Por quanto tempo um cartola deveria ser cartola? Essa é a pergunta que a Fifa colocará aos seus 209 membros a partir de amanhã em São Paulo. A entidade realiza sua reunião anual e, na pauta, uma proposta mais que polêmica: o estabelecimento de um limite de mandato e de idade aos cartolas.

Uma das ideias sobre a mesa é de que um cartola possa ficar no cargo na Fifa por um mandato de quatro anos, renováveis por mais quatro anos. Outro pilar defendido por uma parte dos dirigentes é de que o candidato a uma posição de comando na Fifa tenha no máximo 72 anos no momento de sua eleição.

Mas a resistência contra essa ideia é profunda. Joseph Blatter, presidente da Fifa, se recusou a dar uma resposta sobre qual seria sua posição. A oposição a ele tem a explicação para o silêncio: com 79 anos hoje, Blatter não poderia se candidatar para um novo mandato em 2015, como é seu desejo.

Outro sério problema: a limitação de mandatos impediria reinados, como o de Blatter ou de João Havelange.

Quem também mantém um silêncio total sobre sua posição no debate é a Conmebol. Questionado por este repórter, o presidente da entidade, Eugênio Figueiredo, também se recusou a falar. “É um segredo”, declarou.

Não seria por acaso: Julio Grondona, vice-presidente da Fifa e argentino, tem mais de 80 anos. José Maria Marin também. O brasileiros Marco Polo Del Nero nasceu em 1941 e também já tem mais de 72 anos. O próprio Figueiredo também passou dos 80 anos.

Há poucos dias, o reporter Tariq Panja fez uma entrevista reveladora para a Bloomberg. Ao falar com o chefe do Comitê de Auditoria da Fifa, Domenico Scala, ele foi surpreendido com uma análise do dirigente sobre a corrupção na entidade: “o maior risco para a Fifa são seus membros e seu Comitê Executivo”. Um atestado da qualidade dos líderes que foram parte da entidade.

Se o mundo tem estádios do século XXI ou tecnologia do século XXI, o que está claro é que a Fifa ainda não está preparada para deixar de ser um feudo que, com uma aristocracia milionária, insiste em manter uma lógica de velhos coronéis. O mais irônico disso tudo é que esse poder vem justamente do controle do esporte mais democrático do mundo.