Casa Branca explica seu apoio ao golpe: ‘Goulart e seu governo estavam prestes a instalar regime ditatorial’

Jamil Chade

05 de março de 2012 | 17h13

ESPECIAL: Bastidores da Ditadura no Brasil

O governo dos Estados Unidos justificou seu apoio aos militares brasileiros em 1964 alegando que João Goulart e seus aliados estavam « prestes a instalar um regime ditatorial » no Brasil. Essa foi a explicação que Lincoln Gordon deu em uma reunião em Washington no dia 6 de julho de 1966 com enviado suíço Felix Schnyder, embaixador em Washington. Mas admitiu que o governo americano se sentiu frustrado pelos militares quando os Atos Institucionais ganharam força.

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As revelações fazem parte dos arquivos diplomáticos suíços, num telegrama enviado pelo próprio Schnyder no dia 7 de julho de 1966 a seus superiores em Berna.

Naquele momento, Gordon já era o vice-secretário de Estado norte-americano, posto que ganhou depois de ter sido o embaixador americano no Brasil justamente no ano do Golpe.

Na conversa, o suíço questiona Gordon sobre o motivo pelo qual Washington apoiou os militares brasileiros e foi muito mais hesitante em apoiar o golpe na Argentina. O americano insistiu que, na visão da Casa Branca, os militares brasileiros deram sinais no começo do regime que rapidamente iriam reinstalar a democracia em pouco tempo.

“No Brasil, o sr. Goulart e seu governo estavam prestes a instalar, apesar da constituição, um regime ditatorial. Já os militares se mostraram, pelo menos no começo, relativamente respeituoso em relação à constituição, já que o presidente provisório Marzili (sic) foi eleito, no dia 2 de abril de 1965, pelo Congresso, o que fez o presidente Johnson enviar a ele um telegrama de felicitação », diz o texto, citando a explicação de Gordon. O vice-secretário de Estado chega a alertar na conversa que Goulart « não respeitava os procedimentos constitucionais ».

Ranieri Mazzilli era presidente da Câmara dos deputados e teve a função de presidente brasileiro entre os dias 2 e 15 de abril de 1964. No dia 15, Mazzilli entregou o cargo ao marechal Humberto de Alencar Castelo Branco e ao Comando Supremo da Revolução.

O americano, porém, admitiu abertamente que se o Ato Institucional tivesse sido anunciado nos primeiros dias do Golpe, a Casa Branca não teria dado o mesmo respaldo aos militares brasileiros. « É verdade que o Ato Institucional de 9 de abril (de 1964) concede um número de limitações e é possivel que, se os militares tivessem promulgado isso desde o começo (do regime), os Estados Unidos seriam obrigados a se mostrar mais reticentes », declarou.

Gordon lamenta. «Mas, depois de sido acordado, o reconhecimento (a um regime), não pode ser mais retirado », disse ao suíço.

O Ato Institucional de 1964 desmontou o cenário político brasileiro. O AI 1 permitiu o governo cassar mandatos legislativos, afastar funcionários que fossem vistos como ameaças e suspender direitos politicos. Outros Atos Institucionais acabariam sendo decretados no Brasil nos anos seguintes.

Amanhã neste blog: Para Casa Branca, esquerda brasileira estava decepcionada com Che Guevara.

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