Catacumbas do Brasil: a carta de uma mãe

Catacumbas do Brasil: a carta de uma mãe

Jamil Chade

02 Maio 2016 | 19h34

GENEBRA – A partir de hoje, abro meu blog para trazer relatos e documentos inéditos sobre o que ocorreu nas prisões brasileiras durante a Ditadura Militar. Esses arquivos dormiram nas prateleiras do Comitê Internacional da Cruz Vermelha por 40 anos, até que fossem abertos, recentemente.

Recusando-me a deixar que essas violações sejam contaminadas pelo atual momento do debate político brasileiro, o blog trará a cada dia e durante toda a semana um caso guardado em Genebra.

São relatos de um roteiro da barbárie e fazem parte de um dos acervos mais impressionantes da história do regime militar brasileiro.

Entre as dezenas de cartas e apelos que tenho encontrado nos arquivos mantidos em sigilo até agora, uma delas chamou minha atenção. É de uma mãe que, de forma desesperada, pediu a ajuda internacional diante da tortura sofrido por seu filho.

Escrita no dia 28 de outubro de 1970, essa carta ficou praticamente 46 anos em total sigilo. Ao endereça-la à entidade, a mãe, Lina Penna Sattamini, suplicava para que seu conteúdo não fosse divulgado, sob o risco de sua família ser morta.

No caso da carta de uma mãe desesperada, ela conta que seus familiares passaram 24 dias buscando o filho, Marcos, por todas as prisões de São Paulo. Mas o achou finalmente num hospital militar, moribundo após tortura na OBAN.

Marcos, segundo ela, foi “brutalmente espancado”. “Quando ele já não podia mais aguentar (porque havia desmaiado ou entrado em estado de convulsão), ele era amarrado a uma cadeira para assistir outros presos serem torturados”, diz o relato da mãe, a partir do que foi contado por outros presos.

No hospital desde maio de 1970, tentaram forçar a família a reconhecer os problemas de Marcos como epilepsia, e não como resultado da tortura. No dia 6 de julho, porém, foi novamente levado de volta para OBAN e torturado.

Quando Lina finalmente consegui vê-lo, depois de 87 dias, ela o descreveu como “inválido”. “Sua perna esquerda está paralisada. Sua pálpebra direita está totalmente fechada e o lado esquerdo está apenas meio aberto. Seu corpo se move em pequenas convulsões o tempo inteiro. Ele tem dificuldades para engolir, portando sua voz está mais grave e todo “r” é pronunciado com um sotaque francês. (Eu consultei um neurologista que disse, sem vê-lo, que os sintomas parecem o de um coágulo no cérebro, provavelmente causado por uma pancada)”.

Ele contou à mãe que “além de ter apanhado quando preso, ele recebeu fortes choques elétricos em suas orelhas, boca, pernas e testículos.”

Na segunda vez que foi levado à OBAN, “ele foi colocado ao lado da menina que estava sendo torturada”. “De noite, ele disse, era horrível ouvir os gritos de dor dos outros sob o mesmo ‘tratamento’. Quando disseram a ele que iria assistir à menina recebendo choques elétrico na vagina, ele desmaiou. Ele não se lembra muito depois disso. Ele foi deixado na cela por três dias, inconsciente, sem comida ou atenção médica”, contou a mãe.

“Quando consciente novamente, Marcos tinha amnesia total. Ele achava que estava num navio indo me encontrar nos EUA. Choques elétricos foram aplicados, Após o primeiro, ele voltou a 1966, e apenas depois do terceiro ele voltou a 1970”, relatou.

Marcos não era o único a temer os choques. Na carta, Lina conta outros casos de pessoas traumatizados pela tortura. Alguns chegavam a colocar suas vidas em risco, apenas para evitar o sofrimento dos torturadores. “Um homem, de 53 anos, com medo dos choques, abriu seu estômago com uma navalha e, quando levado aos torturadores, colocou para fora seus intestinos e quase morreu”, completou Lina.

 

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