China ataca Brasil por propor debate sobre o câmbio

Jamil Chade

26 de novembro de 2012 | 11h27

A China chama de “extremista” a proposta brasileira de criar uma tarifa de importação para compensar a valorização do real e alerta que a ideia do governo de Dilma Rousseff poderia “afundar o sistema multilateral do comércio” se vingasse. EUA e Europa também mostram resistência em relação à ideia.

Na manhã de hoje, o Brasil apresentou em Genebra sua proposta de que a OMC comece a lidar com os desequilíbrios cambiais, alegando que a valorização do real e a desvalorização manipulada por alguns governos estariam prejudicando as exportações nacionais. O tema se transformou em uma das bandeiras do governo de Dilma Rousseff no cenário internacional.

No médio prazo, a esperança do governo é de que países possam elevar tarifas de importação todas as vezes que sua moeda sofrer uma forte valorização. Mas, de forma estrtatégica, o governo brasileiro evitou fazer a apresentação formal da criação do mecanismo. No lugar de fazer uma proposta concreta, o que o Itamaraty fez foi sugerir que membros da entidade debatam o formato que poderia ter o novo mecanismo e qual o papel que acreditam que a OMC deve ter. “Estamos abertos a todas as ideias”, declarou Roberto Azevedo, embaixador do Brasil na OMC.

Pequim deixou claro que “entende” os problemas vividos pelo Brasil. Mas já alerta que a solução não será a criação de uma nova barreira e nem mesmo o debate do assunto na OMC. Além disso, alerta que a valorização do real vem em parte do “sucesso da economia brasileira”.

“Criar qualquer tipo de taxa nova seria uma medida extremista”, disse um diplomata chinês ao Estado. “Imagine se cada país decidisse usar o mecanismo”, questionou. “Isso poderia afundar o sistema multilateral do comércio”.

Os chineses, na prática, não querem o estabelecimento de um novo mecanismo que justifique barreiras ao comércio. Pequim, alvo de dezenas de barreiras pelo mundo, também não quer o estabelecimento de um novo fórum permanente para servir de plataforma para que o governo americano ataque a manipulação da moeda chinesa, acusada de ser a responsável pela expansão da exportação da China.

Segundo Pequim, porém, os americanos insistem em ignorar em seu discurso que parte do problema é o fato de injetarem bilhões de dólares no mercado, o que acabaria afetando o valor das demais moedas.

Hoje, a China é a maior exportadora do mundo e deve terminar o ano superando os EUA como o maior fornecedor de bens ao mercado brasileiro, pela primeira vez.

Nos corredores da OMC, diplomatas de diversos países ironizavam o projeto brasileiro, enquanto a reunião ocorria. Um deles chegou a dizer que o debate levaria “anos”. A delegação americana apenas riu quando foi questionada se o encontro havia sido um sucesso. Para outros, a insistência do Brasil em lidar com o tema faz parte apenas “de uma política para desviar a atenção em relação aos problemas reais da competitividade da indústria nacional”.

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