CHINA: SILENCIAR DISSIDENTES É “BATALHA PERDIDA”

CHINA: SILENCIAR DISSIDENTES É “BATALHA PERDIDA”

Jamil Chade

11 Maio 2012 | 08h23

A luta do regime comunista chinês por silenciar os dissidentes é uma “batalha perdida”. Mas uma transição para a democracia ainda levará pelo menos mais uma década para ocorrer na China. A avaliação é de Wanding Ren, ativista chinês considerado como um dos pioneiros na luta contra o regime, autor do Manifesto de Direitos Humanos, divulgado em 1979 durante o breve período de abertura que se seguiu ao Muro da Democracia, em Pequim. O ativista acabaria se transformando em uma celebridade ao ajudar a organizar os protestos da Praça de Tiananmen, em 1989. Os eventos na praça o valeram uma condenação de sete anos de prisão, na década de 1990, período no quando a Anistia Internacional chegou a fazer apelos internacionais diante de relatos de que sua saúde se deteriorava rapidamente dentro da cadeia por negligência do regime.

Desde então, o ativista passou a colecionar prêmios no Ocidente por sua luta pelos direitos humanos na China. Em entrevista ao Estado, Ren admitiu que a transição para um regime mais aberto foi adiado em pelo menos um quarto de século depois que a linha dura do Partido Comunista sentiu que poderia perder o controle da sociedade, em 1989. Mas estima que Pequim tem dificuldades cada vez maiores para frear as críticas e o descontentamento interno. Eis os principais trechos da entrevista, concedida em Genebra :

P – Nos últimos meses, temos visto uma série de dissidentes causando saia-justa para a China. Porque isso vem ocorrendo agora…

R  – Estamos vivendo um momento importante. O regime tem enfretado um crise política interna significante. Há uma disputa por poder. Ao mesmo tempo, as tecnologias de informação estão dificultando as coisas para os agentes da repressão.

P – Há 20 anos, os protestos tomavam Tiananmen. Hoje, o protesto parece estar nas redes sociais. O governo mudou o foco da repressão….

R – O governo tenta fazer o tudo que está em suas mãos para controlar o fluxo de informação dentro do país. Mas essa batalha é uma batalha perdida, assim como é a tentativa de silenciar tantos dissidentes. A Internet é muito difícil de controlar. Portanto, apesar de todos os esforços, as pessoas ainda estão se comunicando e a informação está sendo disseminada. Nem sempre é simples. O fluxo por vezes tem de sair da China e só depois é que a informação volta para a China. A Internet será um instrumento fundamental nos próximos anos para que as pessoas organizem a resistência. Será um pesadelo para o regime. Hoje, uma parte significativa do movimeto de oposição já ocorre pela Internet. O governo pode ter algum sucesso por algum tempo na repressão. Mas não conseguirá abafar o movimento como fazia antes conosco.

P – O sr. acredita que, se a Internet tivesse existido em 1989, o massacre de Tiananmen teria ocorrido…

R –Não sei. Sinceramente, não sei. Talvez não. Acho que poderiamos ter tido sucesso. Continuo acreditando que estávamos muito próximo de um êxito. Dentro do regime, uma parte da classe política também estava pronta para aceitar a democracia. Mas foi a minoria, de linha dura, que impediu.

P – A abertura do mercado, o consumo e a maior renda de parte da sociedade chinesa mina o controle do regime ou consolida o poder do Partido Comunista…

R – O desenvolvimento econômico é uma faca de dois gumes. Essa maor renda da uma maior liberdade individual e isso é importante. Mas o regime foi aprendendo com outras experiências em outros países como fazer para se adequar e continuar a controlar a sociedade e manter o poder. Ao longo dos anos, outro fenômeno ainda foi registrado na China. A nova elite econômica, que ganha muito dinheiro, foi convidada pelo regime para estar no mesmo barco. Criaram uma aliança poderosa entre a elite econômica e a elite política. Agora, essa elite econômica fará todo o possivel para evitar que o barco vire e esse é um dos maiores obstáculos para a democracia.

P –  O sr. dedicou parte de sua vida para lutar pela democracia na China. O sr. acredita que verá ainda a transição antes de morrer.

R – Levará pelo menos mais uma década ou até 20 anos para que isso ocorra. Mas vai ocorrer e o próprio governo sabe disso. Não há como continuar a silenciar mais essa geração.

P – A China faz parte dos Brics. O sr. acredita que o bloco deveria dar mais atenção à questão dos direitos humanos…

R – Brasil e Índia não se pronunciam sobre esse tema com a China porque sabem que tem sérios problemas de direitos humanos em suas próprias sociedades. Na Índia, o sistema de castas ainda existem. No Brasil, milhões ainda vivem em favelas, que são famosas em todo o mundo. Portanto, esses paises não criticam a situação de direitos humanos na China. Conversei com vários embaixadores na ONU e um deles admitiu que o Conselho de Direitos Humanos da ONU é um órgão político, o que não deveria ser. Os representantes de governos, portanto, se ajudam, sabendo que também tem problemas internos. Há uma espécie de solidariedade mútua. Há um acordo tácito para não criticar e, em alguns casos, até se proteger.