COM GOLS, BALOTELLI OBRIGA ITÁLIA A SE QUESTIONAR

COM GOLS, BALOTELLI OBRIGA ITÁLIA A SE QUESTIONAR

Jamil Chade

01 de julho de 2012 | 14h29

Ele não era para ter nascido na Itália. Seus pais, de Gana, optaram por imigrar para a Europa no final dos anos 80. Não foram muito longe. Cruzaram o Mediterrâneo, como milhares de africanos, e desembarcaram no sul do “continente-esperança”. Em 1990, nascia em Palermo o jovem filho de estrangeiros ilegais. Morou com 20 pessoas dividindo uma casa. Com apenas dois anos, o garoto seria dado pelos pais para adoção, diante da precariedade social que viviam. Antes disso, quase morreu e só foi salvo porque não estava em Gana. Cairia justamente com uma família de italianos, os Balotellis.

Ganharia um nome, Mario, além de todos os direitos sociais e econômicos de um europeu. Seu bilhete de loteria estava mesmo premiado. Hoje, Mario Balotelli é um heroi nacional, mas também de uma forma inesperada um ícone de um continente que sofre para entender o que é nacionalidade, direitos de estrangeiros e, diria eu, humanidade.

Para muitos, Balotelli é o máximo representante da Itália multiétnica. Comentaristas foram rapidamente buscar comparações ao jovem nas estátuas de bronze nos museus locais, depois de seus gols que levaram o combalido futebol italiano à final de hoje.

Mas é curioso como gols podem mudar a percepção de uma nação sobre seus próprios cidadãos… Durante sua curta carreira, Balotelli foi alvo de repetidos insultos, dentro e fora de campo. No atual torneio, torcedores espanhóis foram multados em 20 mil euros por entoar cantos racistas cada vez que ele tocava na bola no jogo ainda válido pela primeira fase. Neste domingo, terá a ocasião de revidar, com gols.

No mesmo torneio, Balotelli foi ainda alvo de ataques de grupos de extrema direita. Em sua visita ao campo de Auschwitz, ele indicou que um de seus pais tinha origens judaicas. Africano e filho adotivo de judeus. Uma combinação perfeita para grupos xenófobos. Em outros jogos em sua carreira, foi recebido em campo com bananas.

Mas vamos ser francos: o futebol não é racista. Um estádio é apenas um caixa de ressonância de um sentimento latente. Sozinho, um europeu dificilmente jogaria uma banana a um africano. Mas, nas arquibancadas, o individualismo da lugar a uma atitude de grupo.

Os problemas dos estrangeiros na Europa não estão em campo. Eles são muito mais profundos. Na Itália, a cidadania não é dada a um garoto que tenha nascido no país se ambos os pais forem estrangeiros. De fato, Mario só se tornou “italiano” aos 18 anos, quando a lei permite que um estrangeiro adotado ganhe nacionalidade. Em 2008, nos Jogos Olímpicos, ele não pode jogar. Afinal, era ainda cidadão de Gana. O curioso é que Balotelli não é nem mesmo um jogador pescado na África. Aprendeu a jogar futebol na Itália.

Na Itália, cidades passaram leis que limitam o número de restaurantes étnicos competindo com a tradicional cozinha italiana. Nunca entendi, porém, se um restaurante de comida francesa ou um local especializado em paella valenciana entram nesse critério.

Na Itália, há poucos anos, um certo prefeito usou a noite de Natal para fazer uma ofensiva contra os imigrantes irregulares. Chamou a operação de “Natal Branco”. Quanto humanismo…

Enquanto esses imigrantes estão escondidos nas cozinhas dos restaurantes sofisticados de Milão, lavando pratos, ou limpando as ruas durante a noite, não são considerados problemáticos. Mas quando chegam do Norte de África, cruzando o Mediterrâneo e botes e fugindo de guerras que a própria Europa promoveu, como na Líbia, ai então Roma acha que está na hora de recolocar seus postos de fronteiras. Não por acaso, a própria comunidade africana na Itália comemora cada gol de Balotelli. Sabem que cada um deles é um golpe contra o racismo.

Mas vencer esse problema é ainda um sonho distante. Mesmo transformado em heroi, o jovem atacante foi alvo de uma caricatura nesta semana no jornal La Gazzetta dello Sport que da uma dimensão do tamanho do racismo na Itália. Mario foi apresentado como tendo conquistado a torre do Big Ben, em Londres, depois de eliminar a Inglaterra nas quartas de finais. Para isso, o jornal publicou uma caricatura do jogador, na posição de King Kong. E isso porque ele é um heroi. Imagine como seria a caricatura de um africano que fosse considerado como problemático….

Ao final da partida da Itália contra a Alemanha, Balotelli foi à arquibancada abraçar sua mãe adotiva e incontestavelmente italiana, ao olhar de sua sociedade. A imagem marcou a semana no país. Por anos, a Uefa e a Fifa tentam sem sucesso lutar contra o racismo no futebol. Colocam no ar campanhas milionárias, punem times e colocam multas a jogadores. Mas jamais conseguirão o que o italiano Mario Balotelli conseguiu esta semana. Ao classificar a Itália, em plena crise de corrupção no futebol, à final da Eurocopa, o jovem de 21 anos escancarou a pergunta que muitos sequer ousam fazer: afinal, o que é ser italiano hoje. Uma pergunta que muitos não gostariam sequer que fosse pensada. Muito menos sua eventual resposta…