Começa a Eurocopa, mais politizada que nunca

Começa a Eurocopa, mais politizada que nunca

Jamil Chade

08 de junho de 2012 | 11h30

 

Começa hoje a Eurocopa, o terceiro maior torneio esportivo do mundo e que para muitos é considerado como uma Copa do Mundo sem Brasil e Argentina.  Poucas vezes nos 50 anos da Eurocopa, porém, o torneio ganhou uma dimensão política tão grande como o que começa na tarde de hoje na Polônia e Ucrânia.

O Vaticano resolveu usar a bola para marcar sua posição. O Papa Bento XVI enviou uma carta aos cardeais polonoses nesta sexta-feira indicando que o futebol – como esporte de equipe – é uma força contra o egoismo, promove a “fraternidade e o amor”.

Já o governo alemão enviou uma carta a cada um dos jogadores de sua seleção para alertar para a situação dos direitos humanos na Ucrânia e o tratamento que Timochenko vem recebendo. (As más línguas comentam que alguns tiveram de explicar aos colegas no time que Timochenko não é um atacante da seleção local). Lahm, capitão da seleção alemã, indicou há poucos dias que, se seu time vencer o torneio, não dará a mão ao presidente da Ucrânia, que entregará a taça. Uma série de políticos também já indicou que irão promover um boicote, como demonstração de desagrado em relação à situação dos direitos humanos no país.

A Espanha entra em campo como outra função, também política. O país vive a pior crise de sua história democrática e, justamente enquanto Xavi e Iniesta estão em campo, Madri poderá ter de reconhecer neste final de semana sua incompetência e pedir um resgate para a Europa. Uma humilhação equivalente a um 6 x 0 contra Malta. Mariano Rajoy, o chefe de governo espanhol, não hesitou em apontar que uma nova conquista da Espanha em campo seria positivo para o país. Curioso…acho que já ouvi esse argumento em algum país sul-americano durante a ditadura dos anos 70…

A Itália também entra em campo com uma missão política: mostrar que não é a Máfia que controla o futebol, e nem o país. A Itália vive um terremoto com o novo escândalo de corrupção no esporte.

Da parte dos anfitriões – Polônia e Ucrânia – essa é a oportunidade que esperavam para mostrar ao mundo que fazem parte da Europa Moderna, livre das divisões e muros do passado. Não faltará no evento de abertura uma peça de Chopin, num esforço de mostrar que há séculos a Polônia compartilha com a Europa os mesmos valores.

Mesmo quem ficou de fora do torneio, como os sérvios, parecem ter entrado na onda nacionalista. Há uma semana, o atacante Adem Ljajic foi expulso da seleção nacional. O motivo: se recusou a cantar o hino nacional em um amistoso.

Na Europa, uma população cosmopolita e que usa uma moeda que sequer é produzida por seu Banco Central, colocará suas bandeiras nacionais de volta em suas janelas nas próximas três semanas. Poucos se lembram que a Alemanha não existia há 150 anos. Nem a Itália. Pelo menos não como países. Croatas e tchecos descobriram o que era se transformar em um país apenas há um quarto de século.

Mas, em meio à pior crise em 70 anos no continente, o vencedor não hesitará em usar o exemplo em campo de seus compatriotas para reforçar a tese de que, juntos, podem superar as dificuldades. Algo como o filme O Milagre de Berna revelou no caso da Alemanha, em 1954 e apenas nove anos depois de sua derrota na Segunda Guerra Mundial.  (Assista neste blog)

Enfim, começa hoje o que pode ser uma prévia do que veremos em termos de futebol na Copa de 2014 no Brasil. Mas será também um torneio realizado em um momento crítico na história da Europa, em busca de uma redefinição de seu papel no mundo e de países tentando superar crises de identidade.