Como o Catar comprou a Copa

Jamil Chade

01 de junho de 2014 | 05h05

Novas denúncias revelam pagamentos milionários a cartolas para garantir votos na eleição da Fifa

 

GENEBRA – Cartolas do Catar teriam pago pelo menos US$ 5 milhões para comprar votos para que o país fosse escolhido como sede da Copa de 2022. Documentos revelados pelo jornal britânicos, Sunday Times, apontam como um dos principais agentes do futebol do Catar, Mohamed Bin Hammam, atou em diversas regiões do mundo para comprar apoio. A nova revelação fez com que autoridades europeias já peçam o cancelamento da Copa no país árabe.

Bin Hammam era um dos principais aliados do presidente da Fifa, Joseph Blatter. Mas caiu em desgraça com o suíço depois que, em 2011, resolveu se candidatar à presidente da Fifa, inclusive com o apoio de Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF.

Bin Hammam acabou expulso da Fifa depois que foi provado que ele distribuiu dinheiro para ganhar votos para a eleição de 2011.

Agora, a imprensa britânica revela que Bin Hammam também esteve por trás do pagamento de propinas, principalmente na África. A assessoria de imprensa do Catar rejeita a acusação e alerta que Bin Hammam jamais teve qualquer papel na candidatura.

A decisão de dar a Copa para o Catar foi tomada pelos 24 membros do Comitê Executivo da Fifa, em dezembro de 2010. Mas a propina foi distribuída para um número maior de cartolas, justamente para que influenciassem na decisão de quem votaria. No caso da África, quatro cartolas votaram na eleição.

Bin Hammam usou mais de dez fundos para fazer dezenas de pagamentos de até US$ 200 mil para presidentes de 30 federações de futebol da África.

Outros US$ 800 mil foram pagos para o presidente da federação de futebol da Costa do Marfim, Jacques Anouma, para “pressionar pela campanha do Catar”. Anouma é membro do Comitê Executivo da Fifa e votou naquela eleição. Outros dois cartolas que votaram receberam outros US$ 400 mil

Os documentos também revelam que Bin Hammam pagou 305 mil euros para cobrir outros gastos de um ex-membro do Comitê Executivo da Fifa, Reynald Temarii. O beneficiário desse dinheiro acabou jamais podendo votar, já que foi pego antes da eleição prometendo votos em troca de dinheiro.

Em março de 2014, o jornal inglês Daily Telegraph indicou que Bin Hammam havia pago quase US$ 2 milhões para outro ex-vice-presidente da Fifa, Jack Warner, de Trinidad e Tobago. O dinheiro foi depositado dias antes da votação.

Agora, o Sunday Times revela que Bin Hammam pagou por advogados para Warner, com o objetivo de retardar sua expulsão da Fifa e que, portanto, pudesse votar na escolha da sede de 2022. A meta era impedir que seu lugar na Fifa ficasse vago, o que permitiria que fosse substituído por David Chung, que apoiaria a candidatura da Austrália.

No total, Warner teria recebido US$ 1,6 milhão de Bin Hammam. O acordo era claro: de um lado, o caribenho ajudaria Bin Hammam a ser eleito como presidente da Fifa em 2011, enquanto Warner votaria pelo Catar para 2022. Os documentos revelam depósitos pelo cartola árabe de US$ 450 mil na conta de Warner logo antes da votação em 2011.

Pressão – Diante das novas revelações, a Fifa é uma vez mais colocada em uma situação de dramático mal-estar. A entidade aguarda o resultado de uma investigação que está sendo realizada pelo americano Michael Garcia. Na semana que vem, Garcia viaja até o Golfo para tentar obter maiores informações.

Mas autoridades europeias já insistem que, diante das revelações deste fim de semana, não há como a Fifa manter o Catar como sede e uma nova concorrência deve ser aberta.  Há uma semana, Blatter admitiu que a escolha do Catar “foi um erro”. Em 2011, um email do secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke, apontava que o Catar havia “comprado” a Copa.

Este blog revelou que as suspeitas não se limitam à África. Todos os votos sul-americanos foram para o Catar em 2010, inclusive de Teixeira, na época presidente da CBF. Em uma viagem ao Brasil, o então emir do Catar distribuiu relógios de ouro aos cartolas, numa reunião no Rio de Janeiro.