“Como se diz Globalization em inglês?”

Jamil Chade

04 de agosto de 2015 | 18h41

GENEBRA – Emails confidenciais da Sony, revelados pelo grupo Wikileaks, trazem vários segredos industriais do setor fonográfico. Mas num dos documentos que pude ler, o segredo que é revelado é outro: o do futuro da globalização. A troca de e-mails data de 25 de julho de 2014 e dois executivos da empresa discutiam o futuro do mercado, do setor e da música. Em cada uma das mensagens, o termo “Music strategy-confidential » aparecia com destaque.

Num dos trechos, os executivos são claros : « a música está se transformando em um produto puramente digital ». « Uma empresa que apenas grave música digital será muito mais rentável », alertou. « A renda será menor. Mas as margens serão maiores. Sua renda será estável e crescerá com a expansão do mercado digital da música », indicou.

Segundo a estratégia, essas empresas serão valorizadas como « companhias de publicação de música ou canais à cabo, não como gravadoras dos dias atuais ». O CD também está sepultado. « A distribuição física está acabando. Ela não precisa ser eliminada prematuramente. Mas precisa seguir o digital, e não comandá-lo », propõe a Sony. « O negócio digital precisa ser a prioridade ».

Mas é quando a Sony fala de quais músicas que devem ser gravadas, vendidas e promovidas que fica claro que a « internacionalização » pensada por essas multinacionais significa apenas uma coisa : a música em inglês. « Internacionalmente, a maioria do repertório local terá de provavelmente ser eliminado », declarou o estrategista da Sony. « As empresas vão querer se desfazer do repertório local ou criar um selo local e se focar globalmente no repertório na língua inglesa », apontou. Uma exceção é aberta e não tem qualquer consideração artística ou cultural. Mas sim econômica. «Um país que consiga ser rentável sobre seu repertório local (como no Japão) ».

O documento mostra que a ideia romântica e ingênua da globalização como algo que levaria a cultura de todos para todos os demais lugares é apenas um mito. As multinacionais querem lucros e, para isso, precisam apostar num produto que seja vendido em todo o planeta, seja um sanduiche, uma bebida ou uma canção. Nessa estratégia, a ideia de que a música seria a « língua universal » é absolutamente destruída.

Não concordo com o nacionalismo dos franceses que insistem em traduzir até a palavra “computador” e, quase que por decreto, exigir que sua população fala um inglês sofrível. Acho um erro a insistência dos espanhóis em traduzir até mesmo os musicais nos cinemas. Não concordo com a máxima de que filosofia só se faz em alemão e nem que só se pode ser romântico em italiano.

Mas descobrir que uma multinacional da Cultura pretende deliberadamente esquecer de tantos outros sons do planeta escancara uma ameaça que sofremos diariamente : a de ler as mesmas coisas que todos, a de ver as mesmas fotos que todos, a de cantar as mesmas coisas que todos e, claro, a de pensar igual a todo mundo.

Em sinal de resistência e mesmo a partir da cosmopolita Genebra, optei por colocar a meus filhos todos os dias as músicas dos Saltimbancos do Chico, o Sítio do Pica Pau Amarelo do Gil, da Corujinha da Elís e a Bicicleta do Toquinho.

Depois de ler esses e-mails, também prometo aguardar com um entusiasmo ainda maior o próximo disco de Juliana Kehl. Mas, acima de tudo, a de não esquecer uma frase marcante de Desmond Tutu: “Não é incrível que sejamos todos feitos à imagem e semelhança de Deus e, ainda assim, exista tanta diversidade?”