Copa 1982: Thatcher pediu que Fifa evitasse confronto de britânicos com Argentina

Copa 1982: Thatcher pediu que Fifa evitasse confronto de britânicos com Argentina

Jamil Chade

04 de abril de 2013 | 19h00

 

Terça-feira, 18 de maio de 1982. 11 da manhã. Em 10 Downing Street se reuniam a primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher com seu gabinete com 23 ministros. Na agenda, dois pontos fundamentais para o futuro do Reino Unido: a situação nas Ilhas Malvinas diante da guerra e como atuar na Copa do Mundo daquele ano e que começaria poucas semanas depois.

O debate não era sobre a tática em campo. Mas como fazer e como agir se, por algum azar, a Inglaterra tiver de enfrentar a Argentina em uma das fases da competição. A Guerra das Malvinas tinha acabado de começar, semanas antes.

Documentos secretos mantidos nos arquivos diplomáticos britânicos mostram que, longe de ser um assunto apenas de especuladores e comentaristas esportivos, um eventual enfrentamento entre os dois times virou assunto de estado. Na realidade, o assunto acabou afetando também as seleções da Escócia e Irlanda do Norte, que também estavam no Mundial da Espanha.

O primeiro a tomar a palavra foi o secretário para Meio Ambiente, Michael Heseltine, que também se ocupava da pasta de esportes. Segundo ele, o governo não deveria apelar naquele momento para o abandono dos times britânicos do Mundial. Mas que deveria estar pronto a faze-lo caso a situação se deteriorasse e a opinião pública demandasse uma atitude do governo.

Segundo os arquivos indicam,a Fifa já teria apontado às autoridades britânicas que caso a Escócia viesse a cruzar com a Argentina na segunda fase da Copa, a entidade estaria disposta a intervir e mudar o jogo. Um confronto com a Inglaterra só ocorreria numa eventual final, o que nunca ocorreu.

Thatcher tomaria então a palavra e alertaria que “muitos no Reino Unido ficariam profundamente ofendidos se um dos times britânicos enfrentasse a Argentina”. Mas também optou pela cautela e não fez um apelo por um abandono da Copa. Apenas pediu que o secretário de Estado para a Escócia, George Younger, e o secretário de Estado para o Meio Ambiente entrassem em contato com a Fifa para garantir que um eventual confronto na segunda fase entre Escócia e Argentina seria evitado.

Num informe paralelo preparado pelo governo, os britânicos apontavam que a Fifa já os havia alertado que não tinham qualquer chance de banir a Argentina da Copa por conta de sua agressão nas ilhas. Não seria por menos. A Argentina era a campeã que defenderia seu título na Espanha e o então presidente da Fifa, João Havelange, não estava disposto a minar seu evento ou enfurecer os militares argentinos.

Mas Londres também admitia que abandonar a competição seria uma “vitória moral para os argentinos”. Mas os britânicos também tinham outras considerações que iam bem além da guerra: as finanças das federações envolvidas no Mundial.

“As consequências financeiras de um abandono poderiam ser consideraveis”, escreveu o memorando. “Poderia haver uma proibição de jogar a Copa de 1986, uma multa pesada pela Fifa, a possibilidade de compensações, o cancelamento de viagens e hoteis, e os contratos dos jogadores teriam de ser atendidos”, alertou.“As Associações de Futebol da Irlanda do Norte e da Escócia decretariam falência”, completou o informe que ainda indicou que o governo teria a obrigação moral de compensar as entidades pelos prejuizos.

Eis um trecho do arquivo diplomático:

THE S E C R E T A R Y OF S T A T E FOR THE ENVIRONMENT said that the countries competing in the final stages of the World Cup includedEngland, Scotland and Northern Ireland, as well as Argentina who was the current holder. None of the United Kingdom teams was in the same f i r s t round group as Argentina, but Scotland could meet Argentina i n the second round. While the Government had discouraged sporting links with Argentina at any l e v e l i n the United Kingdom or i n Argentina, theyhad taken no action to discourage B r i t i s h sportsmen competing with Argentines i n t h i r d countries. Although the Government had no powers to ban sporting contacts, the football authorities had indicated that they would follow a Government c a l l for withdrawal f r om the competition: but they were unlikely, unless the external situation changed considerably, to withdraw on their own i n i t i a t i v e . His present view was that the Government should not yet suggest withdrawal to the football authorities, but that they should be ready to adopt that course if the situation worsened and i n the light of public opinion.

In discussion the point was made that, while England and Northern Ireland could meet Argentina only in the final or in the play-off for third
place, and it might be possible for the Federation International de Football Association (FIFA) i f necessary to rearrange the second round
of the competition to ensure that Scotland did not meet Argentina i n it, there could be serious disturbances involving B r i t i s h spectators at other
matches. Football supporters from the United Kingdom would t r a v e l to Spain i n any case and disturbances were more l i k e l y i f United Kingdom
teams had been withdrawn f r om the competition. Although the Government’s supporters i n Parliament would be disturbed i f arrangements
could not be made to avoid United Kingdom and Argentine teams meeting, their general view was that the decision on participation should
be left to the football authorities. It was possible that events might lead the football authorities to decide independently to withdraw.

THE P R I M E MINISTER, summing up the discussion, said that many people i n the United Kingdom would be deeply offended if United Kingdom
teams were to play Argentina. There was no reason for the Government to intervene with the football authorities at the present time. If
Scotland’s team reached the second round, it would be helpful if F I FA could arrange that they did not then play Argentina’s,

 

Em campo, todos os times britânicos contribuiram para que o confronto com os argentinos não ocorresse. A Inglaterra fez um início de Mundial exemplar. Venceu seus três primeiros jogos. Mas, na segunda fase, seria eliminada pela Alemanha. Escócia jamais passaria da primeira fase e, no caso da Irlanda do Norte, a seleção acabou também eliminada na segunda fase.

Os confrontos com a Argentina haviam sido evitados. Acima de tudo pela incompetência dos times.

Quatro anos depois, porém, o que muitos temiam iria ocorrer. Argentina e Inglaterra entraram em campo e até hoje aquele jogo faz parte dos debates, seja de torcedores ou de políticos. Maradona faria um gol com a mão e outro antológico, driblando a meio time inglês.  Desta vez, Londres não teve como apelar à Fifa para evitar o confronto.

 

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