De olho em obter maior influência política internacional, Brasil multiplica por 50 ajuda a governos estrangeiros em menos de 10 anos

Jamil Chade

04 de março de 2013 | 18h11

GENEBRA – Num esforço de promoção sua imagem internacional e indicando às principais potências que o Brasil está disposto a pagar o preço de uma liderança, o governo de Dilma Rousseff multiplica suas doações internacionais para crises humanitárias, distribui cheques e faz com que alimentos cheguem principalmente a áreas de interesse político.

Dados internos da ONU obtidos pelo Estado revelam que, em menos de uma década, o Brasil aumentou suas doações em mais de 50 vezes, isso sem contar com doações bilaterais e empréstimos do BNDES, muitas vezes sem um retorno garantido.

O desembarque do País entre os doadores fez com que a ONU, neste ano, transferisse o anúncio de seu apelo mundial por recursos para um evento justamente no Brasil, amanhã. Para isso, a ONU enviará sua coordenadora de Assuntos Humanitários, a baronesa Valerie Amos. O apelo por recursos é uma ação tradicional da ONU que reune os maiores desastres humanitários do mundo e pede que doadores façam suas contribuições.

O costume diplomático é que o lançamento desse apelo ocorra em Nova Iorque, na sede da ONU. Mas, no ano passado e em busca de novas fontes de recursos, a ONU anunciou seu projeto nos países do Golfo Pérsico, de olho nas doações dos ricos emirados da região.

Para 2013, a opção foi a de transferir ao evento a outro potencial doador de peso: o Brasil.“A chegada do Brasil nesse grupo de doadores é um passo importante”, declarou ao Estado Valerie Amos, ex-ministra britânica. Segundo ela, a presença do Brasil no grupo de doadores não é importante apenas por conta dos recursos. “O que queremos é um compromisso com a ideia humanitária”, disse. A ONU não esconde que espera que o Brasil seja uma espécie de representante sul-americano entre os doadores e que convença outros países em desenvolvimento a seguir a mesma linha.

Salvo uma doação pontual de US$ 200 mil para Moçambique em 2000 e o envio de US$ 1,3 milhão em 2005 para as vítimas do Tsunami na Indonésia, o Brasil de fato só passou a ser um doador regular em 2008.

Naquele ano, pelo menos dez países na África, América Latina e Ásia receberam um total de US$ 3,3 milhões. Em 2008, o Brasil fez doações para crises humanitárias tanto em alguns dos países mais pobres do mundo, como Mianmar, Bolívia e Haiti, como também destinou US$ 200 mil para ajudar a China –a segunda maior economia do mundo – a enfrentar um terremoto.

Em 2010, a doação já chegaria a US$ 26 milhões, atingindo desde o Iraque, Ilhas Solomon, Arménia, Coréia do Norte e Mongólia. Em 2011, o volume seria mantido praticamente inalterado, mas com parte do foco sendo conduzido para a Líbia, em plena revolta, e os países vizinhos, como Tunísia e Egito.

Já em 2012, um novo recorde de doações seria obtido, com mais de US$ 54,4 milhões. Grande parte dos recursos faz parte de doações de alimentos que o Brasil prometeu à ONU e não segue em dinheiro vivo. Cabe à ONU encontrar parceiros que possam financiar o transporte dos alimentos.

Metade da doação foi para a Somália, com US$ 26 milhões em alimentos. Uma parte substancial foi focada na África, região que o governo considera como uma de suas prioridades em termos de ampliar sua influência.

Dos 22 países que receberam alimentos ou recursos do Brasil, 15 estão na África. Em 2012, Niger e Quênia chegaram a receber mais recursos que o próprio Haiti, país estratégico para o Brasil na América Latina. Gambia, Mauritânia, Sudão, Angola e Mali estão entre os beneficiados.

Cara Legal – Dentro do governo, diplomatas admitem que a ação é um dos pilares da política externa e da estratégia do Brasil em demonstrar que está disposto a “assumir responsabilidades”.

Para observadores da política externa brasileira, a ação do País pode ser entendida a partir de um discurso que o ex-chanceler e hoje Ministro da Defesa, Celso Amorim, proferiu numa reunião de especialistas em estratégia militar, em 2010. “Generosidade em política externa não pode ser o equivalente a ser um cara legal”, disse Amorim. “Generosidade é atender a nossos próprios interesses no longo prazo e harmonizando esses interesses com interesses de paz e prosperidade para todos. Isso é o que estamos tentando fazer na África”, completou.

Para organizações não-governamentais, o desembarque de países como o Brasil, Índia e China entre doadores é provavelmente “a maior mudança na história recente” da luta contra a pobreza no mundo. Mas isso não vem sem novas preocupações.

“A preocupação que temos é de que a ajuda ao desenvolvimento e o combate à pobreza não se transformem uma vez mais em um instrumento de política externa”, declarou Amy Dodd, da entidade UK Aid Network, em Londres. “Por anos temos lutado contra isso nos países ricos e espero que as lições tenham sido aprendidas”, disse. “A ajuda precisa ser vista apenas pelo o que ela é: uma ajuda ao desenvolvimento”, insistiu.

O resultado da ação do Brasil ainda fez com que uma série de organizações internacionais passassem a colocar o Itamaraty como foco de seu lobby por recursos. Entidades como a Organização Mundial da Saúde, o Fundo Global contra Aids e dezenas de outras entidades passaram a cortejar Brasília em busca de recursos.

Uma delas, o Programa da ONU para o Meio Ambiente, não disfarçou sua frustração. Isso porque, ao final da cúpula Rio+20 em 2012, a presidente Dilma Rousseff anunciou uma doação importante à entidade. Mas, até hoje, o dinheiro não chegou.

Para os países que são tradicionalmente os maiores doadores de recursos, a ação do Brasil alivia o peso de suas responsabilidades financeiras, principalmente em um momento de cortes de recursos e austeridade. “Estamos já colaborando com o Brasil e queremos ampliar essa relação”, declarou ao Estado Nancy Lindborg, administradora do USAID.

“Estamos atuando em diversos países do mundo e, diante da crise, as responsabilidades financeiras pesam”, admitiu Nancy. “Por isso, contar com um número maior de doadores é algo necessário”, indicou.

Há poucas semanas, a OCDE revelou que, em 2011, as doações de países ricos caíram em 3% ao mundo em desenvolvimento, no que seria a primeira redução em 15 anos. “A queda de doações é uma grande preocupação”,indicou Angel Gurria, secretário-geral da OCDE. Os americanos continuam sendo os maiores doadores, com US$ 2 bilhões apenas para emergências humanitárias. No total, em ajuda ao desenvolvimento, os americanos destinaram US$ 30 bilhões em 2011, 1% a menos que em 2010.

Já países como o Japão cortaram suas doações em mais de 10%, contra uma retração dramática de 32% nas ações da Espanha.

Claus Sorensen, diretor do Escritório Humanitário da União Europeia, não esconde que espera que a participação do Brasil ganhe novas dimensões nos próximos anos. “Até agora grande parte da ação brasileira era a doação de alimentos. Agora, começamos a discutir a possibilidade de que o Brasil também pague pelo frete para transportar essa comida”, indicou. Segundo ele, a Europa pagou pelo transporte de alimentos doadores pelo Brasil ao Mali. “Vamos tentar repetir a operação”, insistiu.

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