Aos 150 anos, o futebol moderno se globaliza e movimenta o 16o maior PIB do mundo

Jamil Chade

25 de outubro de 2013 | 19h21

Mas Londres ainda se recusa a permitir que outras entidades nacionais possam ter sua palavra nas regras do jogo

 

GENEBRA – Era um noite de 26 de outubro de 1863 quando advogados e o que se poderia chamar de os primeiros cartolas reuniram num tradicional pub londrino para discutir o estabelecimento de regras claras para o jogo. Hoje, 150 anos depois do nascimento do futebol moderno, o esporte ganhou uma dimensão inédita, é praticado em todos os cantos do planeta e, se fosse uma economia, seria a 16a maior do mundo.

Em um século e meio, o futebol suspendeu guerras, foi o estopim para conflitos, trouxe líderes mundiais para estádios, fascinou crianças, garantiu votos a ditadores, deu esperanças a populações marginalizadas, tirou meninos de favelas e os levou a palácios com reis e criou verdadeiros esquemas de corrupção. Mas, acima de tudo, passou a ser incontornável na sociedade moderna.

Ainda assim, os guardiães das regras do futebol se recusam a abrir a instituição para o mundo e rejeitam uma reforma solicitada por todos. Nesta semana, a International Board voltou a se reunir em Zurique e confirmou que não está disposta a passar por uma reforma. A entidade que zela pelas regras é composta pelas federações de Inglaterra, Pais de Gales, Escócia e Irlanda do Norte, além da Fifa. Mas a ideia de que abrir o grupo para o mundo foi rejeitada e os “donos do jogo” continuam com a palavra final sobre as regras e qualquer avanço no esporte.

A data de amanha, sábado, marca os 150 anos do nascimento da Football Association, a entidade em Londres que estabeleceu pela primeira vez as regras atuais do jogo, montou um campeonato e organizou o futebol. Tudo isso aconteceu na taverna Freemason, em Londres. Na ocasião, o esportista e advogado Ebenezer Morley se encontrou com representantes de clubes e decidiram “harmonizar” as regras do jogo. O primeiro teste ocorreria dois meses depois, numa partida que acabou 0 x 0.

Daquele modesto começo, o futebol moderno ganhou o mundo, em parte justamente por ter regras harmonizadas e simples. Em 1886, as quatro federações britânicas formaram a International Board que, anos depois, ganharia também a presença da Fifa. Especialistas concordam que, por anos, essa formação fez sentido, já que os britânicos eram os únicos que mantinham campeonatos regulares.

Mas, 150 anos depois, cresce a pressão por mudanças na forma pela qual as regras são impostas. Nos últimos dois anos, federações de todo o mundo começaram a pressionar para que a International Board aumente seus membros e apontando que manter a decisão sobre um esporte global em apenas quatro grupos não seria mais justificável, principalmente porque elas ocupam esses cargos apenas por conta da história e tradição.

Acusações ainda apontam para decisões tomadas tendo em vista o interesse apenas do futebol britânico. Um exemplo foi o uso da tecnologia no jogo para determinar se a bola cruzou a linha do gol. Por anos, a entidade se recusou a falar do assunto e, no início de 2010, chegou a votar contra a iniciativa. Mas, diante do gol legítimo da Inglaterra na Copa de 2010 e que não foi confirmado pelo árbitro, o grupo misteriosamente mudou de opinião.

O próprio presidente da Fifa, Sepp Blatter, entrou no debate, pedindo “maior democracia e mais transparência” na formulação das regras da bola.

Mas nem assim o Board cedeu. A única concessão feita foi a criação de dois sub-grupos de trabalho para ajudar a trazer para a mesa “novas ideias”. Um dos grupos será formado por árbitros de todo o mundo. O segundo grupo terá cerca de 20 ex-jogadores e treinadores. Mas nenhuma outra federação.

Os britânicos ainda prometeram publicar detalhes de suas reuniões, além de justificativas para cada uma das decisões. Mas sempre fechando a porta a outros grupos.

“Não se precisa mudar apenas por mudar”, declarou Alex Horne, o secretário-executivo da FA, a federação inglesa. “Estamos satisfeitos sobre o que conseguimos. Se estamos lidando com as regras do jogo, precisamos ser conservadores”, declarou.

Entidades em diversas partes do mundo sabem que se beneficiam de regras estáveis e hamornizadas. Mas não aceitam a tese dos ingleses de que basta ser conservador para garantir estabilidade. “O futebol não tem dono”, disse um representante de uma federação asiática. “Não podemos continuar achando que apenas um pequeno grupo de pessoas manda e desmanda no futebol”, insistiu.

 

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