Desemprego na Espanha chega pela primeira vez a 25% da população

Jamil Chade

26 de outubro de 2012 | 07h53

A crise parece não ter mesmo fim para os espanhóis. Dados divulgados hoje reveleram que, pela primeira vez na história recente do país, mais de 25% da população está sem trabalho. Em apenas cinco anos de crise, 4 milhões de pessoas perderam seus empregos. Mais de 1 milhão de famílias se encontram em uma situação crítica: nenhum de seus membros tem hoje trabalho.

Oficialmente, o número de desempregados chega a 5,7 milhões, o mais alto já registrado. A crise eclodiu incialmente quando o setor da construção quebrou. O problema é que parte das finanças de dezenas de cidades estava baseada nesses empreendimentos. O resultado foi um buraco sem precedentes nas contas do estado.

Se não bastasse, as dúvidas do mercado financeiro sobre a Espanha dificultaram a capacidade do país em se financiar. A resposta foi o maior programa de cortes e redução de investimentos do país em sua história democrática.

Salários foram cortados e investimentos reduzidos ao mínimo. Em escritórios do governo, água para beber foi cortada, assim como o uso de ar-condicionado. Para as cidades menores, a crise se transformou em um verdadeiro inferno. La Corunha decidiu suprimir todos os carros oficiais e parou de dar seguro médico aos vereadores. Paterna reduziu de forma drástica o número de linhas de onibus que servem a cidade e eliminou o serviço de ambulância 24 horas. Isso tudo para ajudar a cortar o orçamento da prefeitura em 40%. Em Ontinyent, o dinheiro para limpar a cidade foi reduzido em 20%.

Na Ciudad Real, a intensidade de luz nas ruas foi cortada em um terço. As fontes da cidade são ligadas apenas aos finais de semana. Em León, o cargo de vice-prefeito foi abolido e, em Cacabelos, a prefeitura já avisou: em 2012, não haverá luzes de Natal.

Sem uma prevista de uma retomada da economia, milhares de jovens estão deixando a Espanha, em busca de oportunidades de trabalho no resto da Europa e América Latina. Pela primeira vez, a busca por cursos de alemão nas escolas espanholas superou a busca pelo inglês, num sinal dos esforços dos espanhois para se preparar para se mudar para a Alemanha, onde a taxa de desemprego é de 6%.

Na Casa do Brasil, em Madri, o número de alunos que querem aprender português também explodiu.

Já as multinacionais admitem que a Europa redescobriu sua pobreza. A gigante Unilever revelou que está preparando uma modificação em seus produtos para que possam chegar ao mercado em embalagens menores, adaptadas à renda mais baixa do consumidor de certos países europeus. A multinacional optou por reconhecer na prática o que políticos rejeitam em declarar publicamente: a pobreza está voltando no continente europeu.

Desde 2009, trabalhadores gregos, espanhóis, portugueses e italianos viram seus salários cortados, com a redução de benefícios e o aumento de impostos. Isso sem contar com a explosão do desemprego que está em um nível recorde no continente europeu.

A projeção é de que, mesmo que a economia europeia volte a se estabilizar, países como a Espanha levarão pelo menos mais cinco anos para voltar a ter o mesmo nível de emprego que registravam em 2007.

Diante dessa nova realidade, empresas tem tomado dois caminhos. O primeiro é o de reorientação sua produção para a exportação, especialmente para mercados emergentes e onde existe uma perspectiva de que milhões de pessoas saiam da pobreza nos próximos anos e se transformem em consumidores.

A Unilever deu claros sinais de que essa não é a única estratégia e que ve a crise como algo de médio prazo. Jan Zijderveld, diretor europeu do grupo, revelou que começou a implementar na zona do euro uma estratégia parecida ao das vendas que realiza em mercados emergentes, principalmente na Ásia. Ou seja, reduzir o tamanho das embalagens e porções, vendendo os mesmos produtos por valores mais baixos, na busca de manter seus clientes.

“A pobreza está voltando para a Europa”, disse Zijderveld, em entrevista publicada na versão alemã do Financial Times. “Se um consumidor espanhol gasta agora em médias apenas 17 euros em compras, não podemos vender sabão em pó que custa metade de seu orçamento”, disse.

Na Espanha, as novas porções de sabão já chegaram aos supermercados, com um volume suficiente para apenas cinco lavadoras. Na Grécia, a empresa também já colocou no mercado porções menores de alimentos, além de maionese em um volume reduzido.

A empresa diz que usou justamente a experiência que adotou na Indonésia nos últimos anos, vendendo pequenos pacotes de xampu por alguns centavos, sempre com lucro. “Sabemos como funciona. Mas esquecemos de aplicar na Europa”, disse.

 

 

Jamil Chade é correspodente do jornal O Estado de São Paulo na Europa desde 2000. Foi premiado como o melhor correspondente brasileiro no exterior em 2011, pela entidade Comunique-se. Com passagem por 67 países e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Genebra, Chade foi presidente da Associação de Correspondentes Estrangeiros na Suíça entre 2003 e 2005 e tem dois livros publicados. « O Mundo Não é Plano » (2010) foi finalista do Prêmio Jabuti, categoria reportagem. Na Suíça, o livro venceu o prêmio Nicolas Bouvier. Em 2011, publicou “Rousseff”.

 

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