Devolvendo a Vacina

Jamil Chade

18 de dezembro de 2009 | 11h13

GENEBRA – Há dois meses, governos se apressavam em tentar obter acordos para a compra da vacina contra a gripe suína. Lembro-me de ver representantes de algumas das maiores farmacêuticas do mundo alertando que não haveria vacina para todos.

Agora, em muitos locais da Europa, o produto está encalhado e governos já começam a devolver as vacinas às multinacionais. Mesmo assim, a Organização Mundial da Saúde (OMS) se recusou ontem a declarar o fim da pandemia do virus H1N1, alertando que uma nova onda de infecções poderia ocorrer no final do inverno do hemisfério norte, entre março e abril.

A Suíça, que havia comprado 13 milhões de doses da vacina para seus 7 milhões de habitantes, anunciou nesta semana que quer se desfazer de 4,5 milhões de doses. Parte da explicação é o fato de que cada pessoa precisa de apenas uma dose, e não duas como se estimava no início da pandemia. Mas outro fenômeno é o baixo interesse da população em se vacinar.

Na Espanha, a ministra da Saúde, Trinidad Jiménez, admitiu que está negociando com as empresas para devolver o produto. « Os contratos assinados com as empresas que nos venderam as vacinas – GSK, Novartis e Sanofi-Pasteur – incluem cláusulas que permitem devolver as vacinas para que se possa distribuir a outros países », disse. A Espanha comprou 37 milhões de doses da vacina para sua população.

A idéia seria passar as doses para países que não assinaram contratos com empresas. Uma das preocupações da ONU no início da pandemia era de que o poder de compra dos países ricos deixasse as demais economias sem acesso ao produto.

Já alguns estados alemães começam negociações com a GlaxoSmithKline para reduzir as encomendas. Em janeiro, Berlim abrirá negociações com outros países para transferir as vacinas encalhadas. 2 milhões de doses poderiam ser vendidas, das mais de 50 milhões que o país adquiriu.

Quem perde com isso são as empresas farmacêuticas. Segundo a Morgan Stanley, os lucros da Novartis poderiam chegar a US$ 600 milhões com a doença, contra 750 milhões de euros para a Sanofi. Já a Glaxo teria lucros de mais de US$ 3 bilhões. Mas a devolução dos estoques pode reduzir e maté 15% esses benefícios.

Quem também perde é a OMS e sua credibilidade. Duramente criticada por ter criado um sentimento de pânico, a OMS se defende e alerta que é « muito cedo ainda » para dizer que a pandemia acabou. Keiji Fukuda, responsável dentro da organização pelo assunto, ainda insiste que a incerteza é o que marca a atual gripe. Para ele, França, Suíça e Leste Europeu mantém um « nível elevado » da gripe. « É improvável que uma pandemia possa desaparecer de um momento a outro », disse.

Para ele, o principal será avaliar o que ocorrerá nos próximos quatro ou cinco meses.

Enquanto os países ricos não sabem o que fazer com suas vacinas, a OMS admite que ainda não enviou aos países pobres as vacinas que recebeu como doação e que foram usadas pelas multinacionais como publicidade.

Segundo Fukuda, isso depende da capacidade do país receptor de mostrar que tem como administrar as vacinas. Nos estoques estão paradas as 180 milhões de vacinas doadas pelas companhias.

A OMS estima que, em oito meses, cerca de 10 mil pessoas morreram por causa da gripe suína. Mas o número poderia ser maior. A gripe sazonal mata entre 250 mil e 500 mil pessoas por ano no mundo.

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