Do outro lado do Muro – 20 anos depois

Do outro lado do Muro – 20 anos depois

Jamil Chade

27 de outubro de 2009 | 10h43

Constanta

Constanta

CONSTANTA, Romênia – Civilizada ou covarde? Livre ou cínica? Potência ou um império de muletas? Nos últimos 60 anos, a Europa se transformou em um dos processos de paz de maior sucesso na história moderna. A Europa passou do Holocausto a uma integração invejada por muitos, inclusive com moeda única, um hino e, em breve, um presidente. Mas na primeira década do século XXI, a Europa se encontra em um profundo dilema e em busca de novos caminhos. Imigração, problemas sociais e mesmo a volta de tendências extremistas eram crises latentes na região há anos. Com a atual crise econômica – a pior na região desde a Segunda Guerra Mundial – esses temas se transformaram em assuntos de campanhas presidenciais, de debates entre acadêmicos e mesmo tema de conversa nos cafés das principais capitais do continente.

Bem-vindo ao “Direto da Europa”, um blog com o objetivo de debater as novas realidades do Velho Continente, suas conquistas e seus problemas. Não se trata de criar um tratado sobre a Europa. Apenas recolher as migalhas da história. Mas, como diria um velho poeta, as migalhas também precisam ser recolhidas. Para isso, nada melhor que começar pelo extremo da Europa e em uma região que comemora neste ano os 20 anos da queda de todo um sistema: o Leste Europeu. Durante os próximos dias, a idéia é a de percorrer o que um dia esteve do outro lado do muro, isolado pela cortina de ferro.

O início do percurso é a cidade de Constanta, balneário romeno no Mar Negro. Do outro lado, a Ásia Central. Para a União Européia, Constanta representa o primeiro porto de entrada ao bloco para quem vem da Ásia. Ao sul, a Turquia e todo o desafio que ela representa para a Europa. Não por acaso, a segurança é uma das prioridades na região de Constanta. Mas o extremo não é apenas geográfico. A região é uma das mais pobres do continente e os problemas sociais são dramáticos, como veremos nos próximos dias. O objetivo da viagem é o de chegar a Gdansk, onde o movimento de trabalhadores de um estaleiro foi fundamental para gerar a queda dos regimes comunistas. Serão mais de 2,5 mil quilômetros cruzando cinco países que, até 1989, simplesmente estavam isolados pelas barreiras físicas e ideológicas da Guerra Fria.

Nos anos 70, um dos líderes do Partido Comunista chinês, Zhou Enlai, foi questionado sobre o que ele achava do impacto da Revolução Francesa, de 1789. Com uma história de seu país de sete mil anos, a resposta do líder chinês surpreendeu muitos no Ocidente: “ainda é muito cedo para dizer qual será o impacto”. Mas exatos 200 anos após a Revolução Francesa, as revoluções no Leste Europeu em 1989 passaram a fazer parte de um pequeno grupo de acontecimentos que de fato determinaram uma mudança no destino de muitos países, inclusive em várias regiões do mundo. O impacto foi sentido de Havana à Luanda, de Pequim a Washington. De Berlim aos locais mais isolados da África onde guerrilhas atuavam financiadas pela lógica da Guerra Fria.

Nos anos seguintes à queda do Muro de Berlim e o fim da Cortina de Ferro, Francis Fukuyama falou no “fim da história”. “Podemos estar presenciando não apenas o fim da Guerra Fria ou a passagem de um período particular da história pós-guerra. Mas o fim da história como tal. Ou seja, o ponto final da evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia liberal ocidental como a forma final de governar”, disse.

De fato, a democracia liberal ocidental foi implementada em toda a região. A bandeira da OTAN e da União Européia estão colocadas em praças que foram criadas para glorificar o sistema comunista. Mas nos próximos dias, a viagem mostrará que poucas foram as teorias acadêmicas que mais se enganaram em relação ao que seriam os anos seguintes. A história não terminou. Está apenas começando.

Bem-Vindo e Boa Viagem!

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.