E A FIFA LOTEOU A BOLA…

E A FIFA LOTEOU A BOLA…

Jamil Chade

06 de julho de 2012 | 11h51

 

Todos se lembram daquele perna de pau que morava na mesma rua e que era o dono da bola. Só jogava porque tinha a melhor bola do bairro. Novinha e que vinha de baixo do braço do garoto que impunha suas condições para emprestar a bola. Pois bem. O perna de pau cresceu e hoje é presidente da Fifa, Joseph Blatter. Só não perdeu o hábito: voltou a colocar suas condições para emprestar a bola. Desta vez, por um preço alto.

Nesta semana, a Fifa anunciou com toda a pompa que passou a autorizar o uso da tecnologia no futebol para determinar se uma bola cruzou ou não a linha do gol. Confesso que, na minha opinião, gostei da decisão e acredito que será positivo. Afinal, premiará a competência. Sim. É verdade. O debate na mesa de bar é bom. Mas, convenhamos: podemos simplesmente mudar o foco do debate, não é mesmo…

O problema não é a introdução da tecnologia. Mas sim como ela foi feita. Uma vez mais, a Fifa conseguiu transformar a introdução de uma medida positiva em uma grande manobra comercial. Em 2009, entrevistei Blatter e ele insistiu ser contra a tecnologia. Pior: argumentou que o erro fazia parte da sociedade e, portanto, teriamos de aceitar também no futebol.

Mas tudo mudou em 2010, quando a Inglaterra foi desclassificada pela Alemanha e um gol legítimo de Lampard não foi dado. Eu estava no estádio naquele dia e justamente na linha do gol. Todos nós vimos que a bola entrou. Menos o juiz. A pressão dos ingleses passou a ser insustentável, com lobby na imprensa e nos bastidores da Fifa. Curiosamente, eles nunca haviam tocado no assunto antes. Vale lembrar que, em 1966, um lance da Inglaterra na final contra a Alemanha gerou a mesma polêmica. Hurst chutou. A bola bateu no travessão e caiu fora. Mas o juiz deu o gol.

Enfim, voltando a 2010, Blatter prometeu que tal incidente não voltaria a ocorrer. A Fifa abriu uma fase de testes e um total de nove empresas de tecnologia apresetaram seus sistemas que garantiriam detectar se a bola entrou ou não. Ao final do processo, apenas duas empresas foram certificadas. Curiosamente, duas empresas ligadas a dois dos maiores patrocinadores da Fifa.

A primeira é a Hawkeye, que foi comprada pela Sony, parceira da Fifa e que garante milhões à entidade a cada ano em patrocínio. A segunda é a GoalRef, produto de um laboratório alemão com uma relação íntima com a Adidas, outro pilar das finanças da Fifa.

Pois bem. A tecnologia será introduzida. Mas o clube que quiser adota-la terá de comprar de uma das duas empresas parceiras da Fifa. O preço não é exorbitante: US$ 250 mil por estádio. Mas imaginem quantos estádios tem apenas na rica Europa…Ou seja, a garantia de lucros milionários.

Jerome Valcke, secretário-geral da Fifa, me garantiu ontem que o sistema está aberto a qualquer empresa que queira desenvolver a tecnologia. Mas só não disse que, no final do processo, quem tem a palavra final é a Fifa. Também não disse que, quando as novas empresas chegarem, os principais estádios do mundo já estarão equipados, justamente pelos amigos de Blatter. Quem usar o sistema autorizado pela Fifa, ou terá de pagar a instalação da tecnologia da Sony em seu estádio ou ficará escravo para sempre das bolas da Adidas.

Como diz um sábio amigo meu: lotearam a bola…

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