Em 12 horas, foto de Aylan gerou 100 mil euros em doações espontâneas para a ONU

Em 12 horas, foto de Aylan gerou 100 mil euros em doações espontâneas para a ONU

Jamil Chade

04 Setembro 2015 | 20h09

 

 

Nas 12 horas que se seguiram à difusão da foto do garoto sírio na praia de Bodrum, o escritório da ONU em Genebra para Refugiados recebeu 100 mil euros em doações espontâneas.

“O departamento de coleta de doações foi inundado de consultas”, contou há pouco em conversa com este blog a diretora de Comunicações do Alto Comissariado da ONU para Refugiados, Melissa Fleming.

Detalhe: há uma semana, o Programa Mundial de Alimentação da ONU cortou a entrega de comida para 229 mil refugiados por falta de dinheiro.

 

Motivos

Aylan comoveu o mundo. Mas o que leva um pai a colocar uma família que não sabe nadar em um bote de plástico e cruzar o mar de forma ameaçadora?

A resposta está no novo informe produzido pela Comissão de Inquérito da ONU sobre os Crimes na Síria. No documento, uma constatação: a vida das crianças sírias já foi destruída. « Crianças na Síria estão demonstrando sintomas de trauma e desordens psicológicas por conta da exposição à violência », indicou o documento. « A vida das crianças sírias foi destruída pela brutalidade da guerra. Os atores no conflito estão recrutando e usando crianças nas hostilidades », disse.

Entre os meninos, as violações ocorrem tanto pelo governo como pelos grupos jihadistas. Segundo a investigação, o Estado Islâmico passou a exigir na região de Dayr Az-Zawr que cada família mandasse um garoto para a guerra. As execuções de crianças pelo grupo também são frequentes, como em Hasakah, Raqqah e Dayr Az-Zawr. Os pais e outros menores são obrigados a assistir aos atos. O EI ainda força crianças a executarem as matanças e coloca menores a partir de seis anos de idade para carregar armas.

De acordo com o informe, « milhares de crianças tem sido mortas e feridas pelos ataques aéreos do governo em Aleppo, Damasco, Dara’a, Idlib e Dayr Az-Zawr ». Em maio, uma dessas bombas atingiu o colégio de Al-Rajaa, sem qualquer presença de bases militares. Cinco crianças e vários professores morreram. Algumas escolas em Damasco passaram a dar aulas nos porões.

A ONU também indica que « garotos considerados como tendo idade para lutar » são detidos e torturados pelo governo com adultos em prisões « desumanas ». Em Damasco, algumas prisões chegam a ter crianças de onze anos, torturadas e abusadas sexualmente.

Entre as garotas, os relatos apontam que o EI « transformou em escravas sexuais a milhares de meninas de menos de 18 anos » e centenas delas foram forçadas a se casar com combatentes.

Portanto, quando alguém tentar perguntar como é que essas pessoas são “loucas” de entrar em barcos como o que virou com Aylan, a resposta é lamentavelmente simples: eles não viviam. Apenas sobreviviam em um inferno.