ENTREVISTA COM A “MENINA DA FOTO”, 40 ANOS DEPOIS

ENTREVISTA COM A “MENINA DA FOTO”, 40 ANOS DEPOIS

Jamil Chade

08 de junho de 2012 | 15h17

 

Ela se transformou no símbolo da dor da guerra do Vietnã. Sua foto, correndo nua diante do bombardeio de seu vilarejo deu a volta ao mundo e hoje completa 40 anos. Phan Thi Kim Phuc ainda leva no corpo as marcas do bombardeio. Mas insiste: perdoou que lançou as bombas e garante que não quer revanche. “Eu estive no inferno e decidi que, se eu mantivesse o ódio, nunca sairia desse inferno”, afirmou a vietnamita.

Em entrevista que me concedeu no ano passado em Genebra, Kim conta que jamais esquecerá daquele 8 de junho de 1972. Veja o que ela tem a dizer:

“Estávamos em nossas casas e, de repente, começamos a ver que nossa vila estava sendo atacada. Corremos para um templo que não ficava longe da minha casa. Mas ai os adultos se deram conta que o templo também estava sob ataque”, conta. “A decisão de todos foi de sair correndo. Eu estava com muito medo. Ao sair, senti meu corpo inteiro queimar, como se eu estivesse em um forno. Era o napalm, que eu sinceramente não tinha idéia do que era até aquele momento”, diz. “Eu gritava nong qua, nong qua – muito quente, muito quente”, conta.

65% de seu corpo foi queimado. As queimaduras vieram da bomba de napalm que foi solta sobre seu vilarejo, Trang Bang, no sul do Vietnã e 40 quilometros de Saigon. A bomba foi largada pelos soldados do Vietnã do Sul contra tropas do Vietnã do norte que já estavam na região. A operação, segundo pesquisas, teria sido coordenada com militares americanos, ainda que Washington jamais tenha admitido. Em 1972, Kim tinha apenas nove anos. Hoje, com 45 anos, é casada e mora no Canadá com seus dois filhos. Sua foto, tirada por um jornalista da AP, ganhou o Prêmio Pulitzer daquele ano e se tranformou no símbolo do absurdo daquele conflito.

Ao seu lado, seu irmão Tam e uma prima corriam para escapar das bombas. “Duas primas minhas, de três anos e de seis meses, não conseguiram ser retiradas e morreram”, afirma. Enquanto sua foto corria o mundo, a vida da pequena menina mudava de uma forma radical.

Ela conta que foi levada a um hospital em Saigon após o ataque pelo próprio fotógrafo que a salvou. “Eu lembro que ele jogava água no meu corpo quando me viu”. Quando chegou ao hospital, a primeira avaliação foi de que não sobreviviria. “Estive perto da morte. Permaneci 14 meses internadas e passei por 17 cirurgias”, diz. A última ocorreu já na Alemanha Oriental em 1984. Mas nem assim as marcas desapareceram. “Continuo sentindo muita dor a cada movimento. Além disso, as cirurgias não curaram o choque emocional que eu sofri”, afirma.

Mais de um ano depois do ataque, Kim retornou a seu vilarejo, no sul do Vietnã. “Alguns dias depois que voltei à casa de minha família, meu pai me trouxe um jornal e me mostrou minha foto. Fiquei horrorizada e chorei por vários dias. Foi naquele momento que comecei a entender o que eu tinha vivido. Além disso, estava muito envergonhada. Como menina, não suportava me ver nua em uma foto que o mundo inteiro viu”, diz. Kim relata que estava vestida com uma roupa leve no momento do ataque e que, quando saiu do templo, foi queimada em alguns segundos.

“Tive sorte. Se estivesse usando uma roupa mais pesada ou que levasse mais tempo para queimar, eu estaria morta. Muitos morreram exatamente desta forma”, diz. “Eu vivi um milagre”. Com 13 anos, a vietnamita foi estudar em Saigon. “Cresci com muitas perguntas que me atormentaram por anos. POrque é que a guerra teve de ocorrer, porque tanta gente da minha família morreu, porque é que eu sofri”, afirma.

No regime comunista, obteve a autorização alguns anos mais tarde para estudar medicina em Cuba e ainda arranha um espanhol. “Não posso dizer que a vida era boa em Cuba. Mas foi lá que conheci meu marido. Decidimos nos casar e ganhamos um visto para passar nossa lua de mel em Moscou. Obviamente esse não era o plano. O avião que tomamos parou na costa leste do Canadá para abastecer e, nesse momento, nos escapamos e pedimos asilo”, conta. “Foi fantástico. Comecei uma vida nova”, diz.

Sua idéia era viver no anonimato, formar uma família e esquecer da guerra e dos regimes comunistas. Se converteu ao cristianismo e deixou suas tradições Cao Dai. Mas sua foto a perseguiu. “Um dia, nos anos 90, eu estava andando na rua em Toronto e alguém me parou e me disse que sabia quem eu era. Matérias nos jornais canadenses e americanos começaram a surgir e fiquei muito assustada”, conta.

Com dois filhos pequenos, Kim decidiu mudar-se para uma região mais afastada no Canadá. “Não queria que meus filhos sofressem. Por isso me assustei. Mas logo entendi que essa não era a reação correta. Entendi que eu não poderia mudar o que ocorria comigo. Mas eu poderia mudar o significado do que ocorreu”, diz. Kim passou a atuar como uma ativista contra as guerras e pela proteção de civis, especialmente crianças.

Passou a se embaixadora da Unesco e criou uma fundação humanitária. Até hoje ela se lembra dos comentários que foram revelados mais tarde de uma conversa do ex-presidente Richard Nixon com um de seus assessores, em que afirmou duvidar da autenticidade da foto. Hoje, garante que não tem “nem ódio nem raiva” dos americanos. Ela também se recusou a ir investigar quem teria largado a bomba de napalm em seu vilarejo. “Não adianta mais. O que eu preciso fazer é ajudar para que coisas como a que aconteceram comigo não se repitam”, diz.

Perdão – Elogiando o presidente Barack Obama e defendendo a decisão de dar ao americano o Prêmio Nobel da Paz, Kim garante que, de todas as lições que aprendeu, a mais difícil foi a de perdoar. “Mas essa eu também aprendi. Cresci com dores e perdas. Vivi o inferno. Mas viver com ódio era prolongar o inferno”, diz. “Seja o Iraque, Afeganistão ou a pobreza na África, as guerras são iguais para as vítimas inocentes. Não podemos mais aceitar que crianças sofram o que eu sofri. Mas isso continua. Elas não são asiáticas. Podemos ser árabes ou africanas. Mas não podemos mais aceitar novas Kims”, completa.