Entrevista exclusiva com Pistorius em 2012: “Vou estar no meu auge no Rio em 2016”

Jamil Chade

20 de fevereiro de 2013 | 09h37

Seja qual for o resultado da investigação e do processo contra Oscar Pistorius, a realidade é que sua carreira está seriamente ameaçada. O atleta sul-africano entrou para a história ao se tornar o primeiro homem a competir nos Jogos Olímpicos com suas duas pernas amputadas. Mas, em entrevista a este reporter durante o evento na Inglaterra em meados de 2012, ele deixou claro que não queria parar por ai.

Sua meta era convencer o mundo de que ele deveria ser tratado como um atleta como qualquer outro e alertou à reportagem do Estado que chegaria ao pico de seu desempenho no Rio de Janeiro em 2016.

“Só por estar aqui já atingi meu objetivo”, disse. “Mas agora o que quero é chegar até as semi-finais (em Londres) e depois ir ao Rio em quatro anos e tentar chegar até a final”, declarou na época.

Pistorius teve suas duas pernas amputadas quando ainda tinha onze meses de idade. A recomendação dos médicos era de que a operação fosse realizada antes de que ele aprendesse a andar, para reduzir o trauma.

“Tive uma infância muito normal. Nunca vi diferença entre deficiência e habilidade”, comenta o atleta. “Minha mãe gritava pela manhã antes da escola ao meu irmão: ‘coloque o sapato’ e para mim ‘coloque a prótese’e não se fala mais nisso”, contou. Foi dela que Pistorius levou parte de sua força. “Ela me dizia que os perdedores eram aqueles que não participam. Não aqueles que ficam por último”, disse.

Nos anos que se seguiram, o sul-africano levaria esse ensinamento ao pé da letra. Esteve envolvido em vários esportes e, em 2003, sofreu um acidente jogando rugby. “Ao cair, lembro que alguns país gritavam: não seja mole. Levante”, relembra. Mas a realidade é que teve de buscar um novo esporte.

Os médicos sugeriram atletismo e, três semanas depois de começar a treinar, se deu conta que já havia quebrado o recorde paraolimpico. Sete meses depois, ganharia sua primeira medalha de ouro nos Jogos Paraolimpicos de Atenas em 2004. Em 2008, em Pequim, deixaria os Jogos Paraolímpicos com três ouros.

Mas, junto com a sensação que gerou pelo circuito, o sul-africano foi cercado por suspeitas e ataques. Pressionada por alguns atletas e treinadores, a Federação Internacional de Atlestimo o proibiu de competir entre os atletas sem problemas físicos. Mesmo Michael Johnson o atacou, alertando que o uso da prótese daria uma vantagem injusta em comparação aos demais atletas.

O caso chegou ao Tribunal Arbitral dos Esportes que, após ampla investigação, chegou que o sul-africano poderia competir, sob a condição de que utilizasse apenas a prótese que já dispõe, e não outras mais velozes ou mais leves.

“Essa prótese existe desde 1996 e outros atletas já a usavam. Se era uma vantagem, porque é que outros não conseguem fazer o mesmo tempo que eu”, questionou, lembrando que 70% dos atletas nos Jogos Paraolímpicos usam o mesmo instrumento. “Alguns dizem que tenho vantagem por ter menos peso na perna e há um monte de teorias. Mas, se ela fosse tão incrível, como é que outros não teriam chegado ao mesmo resultado”, insistu. “A verdade é que não há vantagens. Preciso usar meu corpo como qualquer um, tenho de me sacrificar, de me preprar. Para fazer 400 metros, tenho que trabalhar duro”, disse.

Bem-humorado, o sul-africano só fechou a cara na entrevista quando o debate era a discriminação que sofreu dentro da própria delegação de seu país, no Campeonato Mundial de 2011. No revezamento de 400 metros, Pistorius classificou a África do Sul para a final. Mas foi retirado da prova por seu técnico e viu do banco sua seleção ganhar a medalha de prata. “Eu era o mais rápido. Nunca vou entender. Era a minha corrida. E alguem precisa ser responsabilizado por isso um dia”, declarou.

“Quero ir para o Rio em 2016. Será lá que estarei no pico de minha condição”, afirmou. “Já estou ansioso por ir ao Brasil. Estarei com 29 anos e acredito que estarei melhor. Tenho muito trabalho para fazer até lá. Mas adoraria concorrer por uma vaga na final contra os melhores atletas do mundo nos 400 metros”, disse.

“Londres já está fazendo um grande trabalho ao sediar os Jogos. Mas estou certo de que Rio estará à altura e estará pronto para um evento muito colorido em 2016”, completou.

 

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