Especial: Nos trilhos da esperança e do fracasso

Especial: Nos trilhos da esperança e do fracasso

Jamil Chade

09 Setembro 2015 | 03h40

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Caos político europeu transforma linha de trem abandonada em caminho de quem foge de diversos conflitos do mundo

 

Horgos, Sérvia – A tarefa de andar por quilômetros por uma linha de trem não é das mais fáceis, principalmente depois de semanas de um trajeto por diversos países e tendo de cruzar até o mar. Mas o desafio fica ainda maior quando esse percurso precisa ser feito em uma cadeira de rodas. O trilho abandonado de uma linha ferroviária que ligava a Sérvia à Hungria passou a ser ocupado nas últimas semanas por milhares de refugiados que, agora, com seus próprios pés, desafiam a governos e até as dificuldades físicas para chegar até a Europa.

Uma delas, uma senhora idosa e que já não caminhava, era levada dormente por dormente, sobre uma cadeira de roda e que era carregada por uma espécie de mobilização de pessoas para garantir que ela também fosse salva. Seriam centenas de solavancos até o final da linha do trem, já na Hungria e ela, possivelmente seria uma das únicas a fazer o trajeto com as costas viradas para seu futuro.

Por falta de uma política coerente de asilo na Europa, o trilho se transformou em um espelho de um fracasso do bloco sobre como receber os milhares de refugiados. O Estado acompanhou centenas de refugiados que, de uma forma ininterrupta, percorriam o local até chegar à Hungria, a porta da UE. Ou pelo menos era isso que imaginavam.

A horda de pessoas fazia parte de cerca de 4 mil refugiados que, neste momento, atravessa a Sérvia em direção à UE. Quase todos tinham a mesma história para contar. Desembarcaram na Grécia e, dali, ganharam o caminho pela Macedônia até chegar na Sérvia. Ainda teriam de conseguir entrar pela Hungria até chegar à Viena ou Munique.

Mas o fluxo não vai perder força. Dados da ONU apresentados ontem revelaram que mais 7 mil pessoas chegaram ontem na Macedônia, vindos da Grécia e que logo também tomarão a mesma rota, o mesmo trilho de trem. Já na ilha de Lesbos, na Grécia, cerca de 30 mil pessoas estariam aguardando também para começar o périplo.

O trajeto era uma síntese rara de diversos conflitos pelo mundo. Pelos mesmos trilhos passavam sírios, iraquianos, afegãos, palestinos, nigerianos e diversas outras nacionalidades. Eram centenas de homens, mulheres grávidas, crianças, bebês de apenas poucos meses, idosos e pessoas com lembranças físicas de suas guerras.

 

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Lely era uma delas. Sua perna direita ainda estava engessada. “Ela quebrou quando uma bomba explodiu ao lado de nossa casa”, disse Ahmed, seu pai e que a carregava no colo. “Vivíamos no centro de Aleppo. Mas passamos a ser bombardeados pelo Estados Islâmico e por Bashar Assad. Eu estava ficando louco”, disse.

O sírio Hussein Homsi leva em seus ombros uma de suas cinco filhas. “Mudei de casa três vezes antes de decidir deixar a Síria”, disse. “Eu não me importo para qual país eu vou agora. O que quero é levar minhas filhas e esposa a um lugar seguro”. Ele mostra Sara, em seus ombros. “Ela nasceu na guerra. Nunca viveu sem bombas”.

Ao lado de Homsi, uma outra mulher grávida caminhava. Seu marido morreu na guerra e a família de Hussein decidiu que não a deixaria sozinha.

 

Logo atrás, um grupo de pelo menos 30 iraquianos caminhava com passos firmes. “Quantos quilômetros faltam?”, perguntou um deles ao Estado, sem sequer parar. Daquele ponto, seria uma caminhada de apenas mais de 3 quilômetros até a fronteira com a Hungria.

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Um grupo de jovens de Bangladesh se queixava. “Desde que começamos a andar, há sete horas, todos nos dizem que estamos chegando”. Ao lado deles, um homem negro caminhando sozinho pedia água e informação.

A travessia pelo trilho parecia também ser uma espécie de desabafo para alguns. Um grupo de jovens sírios contou à reportagem enquanto andavam que haviam sido sequestrados por máfias búlgaras. “Fomos trancados em um local por três dias e apenas nos soltaram quando nossos pais, em Damasco, enviaram 2 mil euros pela liberação de cada um de nós”, contou Ahmed. “Foi um pesadelo”.

Durante a travessia da Sérvia, os refugiados não receberam qualquer tipo de informação sobre o que ocorreria quando chegassem à Hungria. Belgrado os ignorou, na esperança de que passassem de forma rápida pelo território. Já o governo de Budapeste apenas distribuiu panfletos alertando que não iria aceitar a “imigração ilegal”, sem citar em nenhum trecho os direitos dos refugiados a buscar proteção. Os papeis eram largados pelo caminho, como se o alerta não soasse como uma ameaça para quem sobreviveu a bombas.

O trilho também estava repleto de papel picado. Eram registros desses mesmos refugiados realizados ainda na Grécia. Um desses documentos, recuperados pelo Estado, indicava que um certo Raju Ahmed, nascido em 1974, havia entrado na Grécia em 13 de novembro de 2013.

Pela lei da UE, o refugiado é obrigado a permanecer no país por onde entrou no bloco e ali pedir seu asilo. Mas, para os estrangeiros, a forma de apagar esse registro é justamente picando o documento e reaparecendo na Austria ou Alemanha como se jamais tivessem passado pela Europa.

Lixão – O problema é que, para chegar até o destino final, precisam ainda atravessar a Hungria e muitos não escondiam o temor de serem detidos por governo de Budapeste. E o medo se confirmaria horas depois, ao desembarcarem pela linha do trem em um campo de refugiados, já no lado húngaro e na proximidade da cidade de Roszke.

O local, um campo agrícola, transbordava ontem de pessoas que não eram autorizadas a sair. Um cordão de centenas de policiais armados com gas de pimenta e máscaras higiênicas tentava organizar a transferência dos refugiados. Mas, diante da suposta falta de espaço pela Hungria, eram deixados no campo por dias.

Não foram poucos os momentos em que a multidão tentava escapar, por um milharal. Dentro do campo, o cheiro era insuportável, com comida abandonada, pássaros tentando encontrar sobras, fraldas sujas de crianças e poeira misturadas ao lixo que se formava.

Sobre tudo isso, dormiam e esperavam os refugiados para saber para onde seriam levados. A cada hora, um ônibus se aproximava do local, gerando correria, brigas e empurra-empurra por quem entraria.

“Estamos aqui há dois e não sabemos o que vai ocorrer “, disse Ali Al Dohab, um estudante de engenharia de Ladiqia. “Nos forçam a ficar aqui e nos registrar para ganhar dinheiro da ONU”, acusou. “Mas isso não soluciona nossos problemas.

“O que eu quero é viver como um ser humano. Uma família, uma esposa, um cachorro. Não é o sonho americano. É o sonho de qualquer pessoa”, disse. Ali contou que foi roubado e enganado por traficantes, que os entregaram para a polícia húngara. “Não me sinto como um ser humano. Estamos sobre o lixo, com a pressão da polícia”.

O sírio contou que foi procurar o comando da polícia para pedir explicações e apenas foi informado de que “a Europa tem o maior padrão de qualidade de tratamento de direitos humanos do mundo”. “Isso é um cinismo. Porque então não nos tratam como seres humanos?. Eu fui roubado moralmente e fisicamente”, completou.

Para muitos deles, o pior dos pesadelos começava apenas a se concretizar quando entendiam que aqueles ônibus os estavam levando para um centro de detenção, 40 km dali. O Estado foi até o local presenciou como alguns chegaram a ser transportados em veículos blindados usados para levar prisioneiros, enquanto o centro era fechado por uma grande de arames farpados e monitorada por cães.

A reportagem presenciou quando um grupo de cerca de pessoas refugiados conseguiu escapar da polícia e corriam pelas ruas. Depois de se afastar do centro de detenção, ficaram escondidos como ratos num bosque ao lado da estrada, esperando o melhor momento para continuar a viagem, transformada em drama.