Eurocopa: Líderes europeus boicotam Ucrânia.

Eurocopa: Líderes europeus boicotam Ucrânia.

Jamil Chade

30 de abril de 2012 | 18h07

Durante a Guerra Fria, esporte e diplomacia andavam de mãos dadas. Na realidade, esporte e política nunca deixaram de estar separados, por mais que Fifa, COI e Uefa queiram que acreditemos que não há lugar para a política no esporte. Acusar o esporte de ser politizado é como se um peixe acusasse o outro, em pleno oceano, de estar molhado.

Agora, essa relação íntima entre esporte e política volta a ficar explícita. Líderes europeus anunciaram que ameaçam boicotar o terceiro maior evento esportivo do mundo – a Eurocopa – na Ucrania em apenas poucas semanas. O motivo: o tratamento dado pelo governo de Kiev e Juia Timoshenko, ex-primeira-ministra que promoveu há poucos anos uma verdadeira revolução no país, o tirando da órbita do Kremlin.

Timoshenko acabou sendo presa, sob a alegação de corrupção e abuso de poder. Terá de pagar uma multa de US$ 200 milhões e ficará sete anos na cadeia e, há poucos dias, revelou fotos em que sugere que foi agredida na prisão. Nas capitais europeias, não foram poucos os que temem pela saúde da democracia na Ucrânia e apelam para que a opositora seja liberada.

Mas pouco podiam fazer para pressionar. Kiev não é Damasco, onde sanções podem ser adotadas. Nem Trípoli, bombardeada. A Ucrânia sequer faz parte da UE e, portanto, Bruxelas não pode ameaçar com uma hipotética expulsão do bloco. Por meses, líderes europeus ficaram de mãos atacadas sobre o que fazer.

Agora, esses líderes encontraram um instrumento de pressão – o Esporte. A pratica era uma velha conhecida de americanos, soviéticos ou chineses durante a Guerra Fria, criando um mal-estar bem maior que qualquer discurso nas salas surdas da ONU.

Angela Merkel já anunciou que poderá não acompanhar a Mannschaft jogar em solo ucraniano na Eurocopa, que começa em pouco mais de um mês. A Ucrânia realiza o torneio ao lado da Polônia. A grande final, no dia 1 de julho, ocorre em Kiev.

Em um símbolo político forte, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, também já anunciou nesta segunda-feira que não irá ao evento continental. Viviane Reding, espécie de superministra da Justiça da Europa,  também promete não aparecer, como um protesto. Vaclav Klaus, presidente da República Tcheca, também não viajará, em uma iniciativa que ganha força pelo continente contra o presidente ucraniano Victor Janukovich.

O governo de Kiev já teme que o vento que serviria para promover a nova fase do país e sua entrada no “concerto das nações europeias” se transforme em um pesadelo de proporções internacionais. “Não queremos pensar que os dirigentes políticos alemães são capazes de reanirmar os métodos da Guerra Fria”, afirmou a chancelaria ucraniana. “O que estão fazendo é tentando transformar o esporte em um refem da política”, acusa.

Já a Uefa vive uma situação delicada. Seu presidente, Michel Platini, levou o evento ao Leste Europeu como um sinal de que confiava no fato de que a Europa não se limita aos grandes países. Agora, é obrigado a reagir. “A Uefa alertou a delegação da Ucrânia sobre as preocupações criadas em torno da situação política no país. Ainda que como organização esportiva nunca interfira em assuntos políticos, o máximo organismo do futebol europeu solicitou à Ucrania que transmita essas preocupações às autoridades competentes”, indicou a entidade em um comunicado.

A Uefa pouco poderá influenciar com sua mensagem. Mas nada mais poderoso que o terceiro maior evento esportivo do mundo para escancarar as graves violações de direitos humanos em um país que esperava usar o evento como uma espelho ao mundo. Esse espelho pode mostrar o que nem sempre governos querem mostrar.

 

 

 

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