Europa e EUA boicotam festa de Putin para marcar 70 anos do final da 2a Guerra

Jamil Chade

09 de maio de 2015 | 17h14

70 anos depois de terem sido os principais responsáveis por dar um fim à Segunda Guerra Mundial e sair do conflito como as únicas superpotências mundiais, os EUA e a Rússia não conseguem sequer sentar à mesma mesa para comemorar a data.

Hoje, em Moscou, o governo de Vladimir Putin promoveu um desfile com milhares de soldados e 2 mil armamentos, dezenas de aviões e tanques. O espetáculo montado, porém, teve um ausente: o Ocidente. Putin simbolicamente convidou líderes de 70 países para marcar a data. Mas dezenas deles se recusaram a fazer a viagem iante da crise na Ucrânia.

No evento que revelou ao mundo pela primeira vez o tanque T-14, conhecido como o mais potente do setor, foram confirmados apenas os líderes da Bósnia, Islândia, Macedônia, Chipre, Grécia, Montenegro, Servia e Noruega, entre os europeus.

O presidente tcheco, Milos Zeman, chegou a confirmar. Mas diante das críticas domésticas, deu meia volta. Todos os demais governos europeus boicotarão diante das acusações da OTAN de que Moscou está tentando desestabilizar a região.

O evento ainda será um esforço diplomáticos dos russos em mostrar que, apesar das piores sanções desde o final da Guerra Fria, Moscou não está isolado. O presidente chinês, Xi Jinping, foi um dos presentes, além dos sul-africanos, indianos, de várias repúblicas da ex-URSS, Vietnã, Mongolia, africanos e cubanos. Segundo Moscou, apenas 30 chefes de governos confirmaram que estarão na festa. Dilma Rousseff era uma das que estava na lista. Mas cancelou diante da situação doméstica do País.

Para diplomatas europeus, o boicote se contrasta com o cenário das festas dos 60 anos do final da Segunda Guerra, em 2005. Naquele evento em Moscou, o Kremlin estendeu o tapete vermelho para George W. Bush, Jacques Chirac e Gerhard Schroeder.

Desta vez, Merkel garante que homenageou os russos. Mas apenas em uma viagem isolada a Volgograd, conhecida na época como Stalingrado. O conflito ali foi decisivo para estabelecer o futuro do regime nazista.

O presidente ucraniano, Petro Poroshenko, também não viajou para Moscou, ainda que seu país tenha sido liberado graças ao Exército Vermelho.

Patriotismo – Mesmo diante da ausência dos estrangeiros, o evento foi marcado por uma demonstração de força e de patriotismo por Putin. O chefe do Kremlin chegou a usar o boicote para ganhar popularidade e abafar sua profunda crise econômica. “O objetivo é óbvio: minar o poder da Rússia e sua autoridade moral, dividir as pessoas e jogar umas contra as outras, usando especulações históricas em seus jogos geopolíticos”, declarou Putin em abril em um discurso.

Hoje, ele agradeceu americanos, franceses e britânicos pela ajuda na guerra. Mas alertou que muitos líderes tem “ignorado o princípio da cooperação internacional”. Konstantin Kosachev, presidente do Comitê de Relações Exteriores do Parlamento, também adotou o mesmo tom. “O Ocidente tentou estragar a nossa festa de comemoração da vitória”, disse.

A onda patriótica diante de uma crise econômica profunda também se traduziu uma ofensiva cultural nas últimas semanas pelo Kremlin. Além de decorar Moscou com bandeiras, fotos gigantes e promover quase diariamente festejos, filmes foram lançados nos cinemas ressaltando o heroísmo dos russos na guerra.

Nas televisões estatais, os apresentadores passaram a usar um laço de São Jorge, um símbolo da vitória na guerra e recentemente recuperado diante do conflito na Ucrânia.

Mortos – Para o governo de Moscou, o boicote é uma « ofensa » diante do que os russos fizeram durante a Segunda Guerra. Entre diplomatas ocidentais, porém, foi a tentativa do Kremlin de transformar a festa em uma declaração da força que contaminou o evento.

Mas, para historiadores, não se pode borrar o papel dos russos. «Moscou foi crucial para a vitória dos Aliados, mas 70 anos depois, as desavenças voltaram », comentou o historiador Geoffrey Roberts, autor da História Ilustrada da Segunda Guerra da editora Oxford.

Segundo ele, 15% da população da então URSS foi morta e 30% do PIB arrasado. 8 milhões de pessoas morreram para liberar Auschwitz e parar a máquina de guerra nazista. Roberts ainda aponta que foi o ataque soviético sobre Berlim em abril de 45, que levou a Alemanha a ser derrotada. “Foi a URSS que salvou o mundo de Hitler”, insiste o historiador. “Joseph Stalin foi um ditador brutal. Mas foi sua agressividade que jogou o mundo em uma orgia de destruição”.

Um milhão de soldados soviéticos morreram liberando Kharkov, Kiev, Donetsk, Odessa e Sebastopol, antes de chegar até Berlim. Segundo o historiador, Winston Churchill chegou a reconhecer na época que foi o Exército Vermelho que freou a máquina de guerra dos nazistas. 600 divisões alemãs foram destruídas, 3 milhões de soldados da SS foram mortos. 48 mil tanques foram destruídos pelos soviéticos, além de 77 mil aviões.

Já a Alemanha destruiu 70 mil cidades e vilarejos soviéticos, arrasou 98 mil fazendas coletivas e, em Stalingrado, o número de vítimas entre o Exército Vermelho foi o equivalente a todas as mortes nas forças armadas dos americanos e britânicos juntos durante a guerra. Em Leningrado, 600 mil pessoas foram levados à fome extrema. “A Segunda Guerra Mundial foi, acima de tudo, uma guerra germano-soviética”, completou o historiador.