Famílias mandam crianças sozinhas cruzar Mediterrâneo

Famílias mandam crianças sozinhas cruzar Mediterrâneo

Jamil Chade

04 Setembro 2015 | 03h18

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PASSAU, Alemanha – Desesperados diante de 5 anos de guerra, os sírios passaram adotar uma nova estratégia para tentar salvar famílias inteiras: mandar suas crianças sozinhas para percorrer mais de 4 mil quilômetros, cruzar o Mediterrâneo e chegar até a Alemanha. Pelas leis adotadas em Berlim, se uma criança desacompanhada receber o status de refugiado, ela tem o direito de trazer de forma legal seu pai ou sua mãe, que também recebem o benefício.

Dados da ONU indicam que 12 mil crianças já teriam morrido na guerra e um milhão foram feridas. Dos 4 milhões de refugiados sírios por enquanto, mais de um milhão são crianças. Mas são garotos a partir de onze anos que chamam a atenção. Num número cada vez maior, eles viajam sozinhos e acumulam amigos pelo caminho.

Até chegar ao destino final, porém, o que essas crianças enfrentam é uma realidade de dor, de medo e de desespero. Sempre na mão de um traficante e sem contato com a família.

Na cidade de Passau, que serve de entrada para os refugiados ao território alemão, o Estado visitou um centro dedicado exclusivamente aos estrangeiros menores de idade. Ali, garotos até dezessete anos podem pela primeira vez em semanas deitar em uma cama, comer e até jogar futebol em um campo. O centro foi montado pela prefeitura da cidade de Passau e, por dia, recebe 40 crianças.

«Chegar aqui foi um sonho », contou Sheban Firas, de 16 anos e estudante em Aleppo. Quando o Estado entrou no centro, montado de forma improvisada num ginásio de uma escola pública, estava agachado tentando entender o mapa da Alemanha, pendurado numa parede. Ao seu lado, um grupo de pré-adolescentes tentava entender algumas palavras em alemão. Como qualquer jovem de suas idades, não largavam a mão de seus celulares, como se esperassem uma ligação de alguém.

Firas, assim como os demais, foi levado da Síria até a Europa por traficantes. « Meus pais pagaram muito dinheiro a essas pessoas. Eu sou a última esperança da minha família», admitiu.

O primeiro trajeto da viagem ocorreu entre a Síria e a Turquia. « Fomos andando », lembrou. « Nunca andei tanto na minha vida e no escuro », disse. No caminho, foi obrigado a nadar para atravessar rios e temeu quando entrou por uma floresta. « Eu não tenho ideia de onde estava », lembra.

Outro momento de tensão foi o cruzamento do Mediterrâneo. « O barco balançava muito », disse o garoto, que ainda teve de caminhar em vários outros trechos. 17 dias depois, ele entrava pela fronteira alemã e se entregava para a polícia.

Inrad Ali Hussein, de 17 anos, diz que sua família decidiu o enviar com um grupo de traficantes para a Europa para que ele não fosse capturado para lutar pelo EI. Mas, pelo caminho, chegou a pensar que iria morrer. « Entre a Hungria e a Áustria, fomos colocados num caminhão. Éramos 60 pessoas e tivemos de ficar de pé, sem se mexer por 8 horas seguidas », disse.

« Não tinha oxigênio. Eu pensei que ia morrer mesmo », disse. « Algumas pessoas tiveram problemas de saúde ». Sua história guarda uma semelhança grande com a morte de 71 pessoas encontradas em um caminhão numa estrada austríaca. O grupo morreu sufocado, enquanto o motorista fugiu. Questionado se ele sabia do que tinha acontecido com as 71 pessoas, Hussein diz que não tinha ouvido falar na história.

Integração – A integração é lenta e o governo quer ter certeza de que não vai criar guetos. Para isso, o reaprendizado da vida social começa ainda no centro de Passau. Pelas paredes, as « regras da casa » estão escritas em alemão e árabe. Uma escala de quem limpa a cozinha e as mesas também foi estabelecida, além de cursos iniciais de alemão.

Ralf Grunow, líder do centro, explica que os garotos passarão por diversas casas até encontrar uma moradia definitiva. Num primeiro momento, eles são alojados no ginásio. « A primeira medida é de demonstrar a eles que estão m segurança. Que o teto não será destruído », explicou. Médicos fazem consultas e alguns confessam que estão comendo de forma suficiente pela primeira vez em meses. Também ganham 10 euros por semana para poder comprar um chocolate, uma revista ou qualquer outra coisa que os permita entender que vão receber apoio.

Dali, eles são levados para outra residência, onde começam a ter uma vida «normal » e serão entrevistados. Também será nesta fase que os serviços d inteligência vão tentar identificar se existe alguma infiltração de grupos terroristas.

Finalmente, num terceiro momento, vão para as casas onde irão morar de forma definitiva, indo para a escola com outros alemães. « A integração precisa ser gradual », explicou o coordenador.

Ao final desses processo que pode durar três meses, e se o asilo for concedido, o plano da família começa a se tornar realidade e um dos pais pode solicitar um visto na embaixada da Alemanha em Beirute ou Istambul.

Mas só a perspectiva de que tal cenário seja possível já levou milhares de crianças tentar a sorte. Na região do sul da Bavária, pelo menos cinco centros de menores de idade estão lotados.