FIFA E AS ÁGUAS TURVAS DO DANÚBIO

FIFA E AS ÁGUAS TURVAS DO DANÚBIO

Jamil Chade

21 Maio 2012 | 18h49

BUDAPESTE – Na sala onde os cartolas máximos da Fifa se reunem esta semana em Budapeste, uma enorme janela garantia uma vista privilegiada ao rio Danúbio. Na pauta, a reforma da entidade, diante de um dos piores escândalos de corrupção de sua história recente. Nos próximos dias, Blatter e sua turma fariam de tudo para mostrar ao mundo que limparam a Fifa de corruptos, que estabeleceram um tribunal, um código de ética e passarão a exigir até mesmo “ficha limpa” dos futuros cartolas.

Nas ruas do centro de Budapeste, carros negros blindados, motoristas impecavelmente vestidos e um protocolo rigoroso parece estar servindo a uma reunião de cúpula do G-20. Mas não. São apenas cartolas. (Ainda que um deles seja da família real jordaniana, uma tradicional potência do futebol mundial…..) Apenas no saguão de entrada do local onde nesta segunda-feira ocorria a reunião do Comitê Executivo da Fifa, com 24 membros, contei 13 seguranças. Blatter percorre Budapeste escoltado por dois carros de polícia, com sirenes ligadas. Dificil saber qual o motivo…

A proposta de reforma também vem revestida com uma aura de uma revolução interna. Limite de mandato para o presidente da Fifa –oito anos – limite de idade para cartolas e até mesmo uma mudança na forma de escolher as próximas sedes de Mundiais.

Mas a revolução interna não é bem assim e muito menos um golpe de estado orquestrado por parte da elite já no poder.  O limite nos mandatos, se for aprovado, começará a valer a partir de 2015, quando os atuais “velhinhos” da Fifa já estarão fora da entidade, aposentados. O limite de idade também só vale para os novos recrutas, e não aos atuais cartolas – Julio Grondona e Nicolas Leoz tem ambos mais de 80 anos.

A forma mais democrática de se selecionar um local para realizar a Copa do Mundo também é uma reforma para as gerações futuras. A primeira Copa a ter essa nova regra será realizada e 2026, quando Leoz teria quase 100 anos de idade. Para completar, nenhum dos escândalos passados serão tratados, na esperança de que se coloque uma pedra definitiva sobre o passado – não tão distante – de polêmicas.

Bastava aos cartolas olhar ao Danúbio e sua poluição para entender que não é suficiente adotar apenas medidas cosméticas para acertar uma situação que se acumula por anos e anos – ou por quilômetros e quilômetros.

Se os húngaros quisessem limpar seu rio sozinhos, estariam literalmente jogando dinheiro no esgoto. O Danúbio nasce na Floresta Negra, na Alemanha , passa por algumas das regiões mais industrializadas da Europa e quando chega em Budapeste e cruza a cidade pelo meio, suas águas estão turvas, por mais que se deixe de jogar lixo na capital húngara. No total, são 2,8  mil quilômetros até chegar ao Mar Negro.  Se na Alemanha o Danúbio abastece de água parte da população, na Hungria isso é praticamente impossivel por conta da poluição acumulada.

Se a Fifa quisesse fazer uma reforma de fato, adotaria medidas que seriam implementadas imediatamente, e não no futuro. Além disso, adotaria medidas para limpar seu passado, e não apenas adotando o princípio de que o que vale é a transparência de agora em diante.  Por mais que se esforcem esta semana em dar ares de transparência, as águas continuarão turvas.

Pior. A semana que seria de reuniões acabou mais cedo. Na verdade, durou apenas quatro horas. A coletiva de imprensa de Blatter na terça foi cancelada e se limitará em apenas um breve comunicado de imprensa. E depois criticam a preparação do Brasil para a Copa…