Grandes mentiras sobre o Barcelona

Jamil Chade

05 Junho 2013 | 08h35

Quando Neymar pisou no campo do Barcelona, na segunda-feira, mais de 50 mil pessoas o ovacionaram de forma frenética, como se o clube estivesse precisando de forma urgente de títulos e até se esquecessem que o melhor do mundo – Messi – joga justamente no clube catalão. Ao ver Neymar entrar, o público tirou de seus bolsos seus smartphone e câmeras para registrar aquele momento “histórico”.

Mas bastaria ver o evento de um ângulo que não fosse de uma câmera para notar que o garoto franzino que entrava em campo estava atordoado, nervoso e até tímido diante da euforia.

Na verdade, não é só Neymar que está sendo observado a partir de uma imagem distorcida. Mas o próprio Barcelona.

Fora das lentes, fora do show, fora de uma ampla campanha de marketing, olhar hoje para o FC Barcelona sem “interferências” é descobrir uma série de incoerências, hipocrisias e mentiras de um clube que insiste em se apresentar como diferente de todos os demais. Seja por sua história, seja por seus pseudo-valores.

Eis duas grandes mentiras contemporâneas do Barcelona, que são usadas como espécies de mitos urbanos do clube:

Mentira 1

Um clube com valores éticos – O Barça insiste que é um clube com valores éticos e uma história ligada ao combate pela liberdade. O clube adora alimentar a ideia de que, por anos, foi quem resistiu a ditadura de Franco, na Espanha. Um de seus presidentes chegou mesmo a ser assassinado. Antes, em 1925, um fato político marcaria a história do clube. Em uma reação contra a ditadura de Primo de Rivera, a torcida vaiou o hino da Espanha. O governo fechou o clube por seis meses. Disso e de outros episódios nasceu a ideia de que o Barça seria “mais que um clube”.

Mas o que diriam esses herois ao ver que, na camisa do Barça, está hoje a marca de uma ditadura: Catar. Pela primeira vez na história o clube vendeu sua alma e foi justamente para um governo absolutista, acusado de não respeitar direitos humanos, tratar toda uma classe de trabalhadores como de segunda categoria e de não ter limites em comprar seu lugar no mundo.

Há outro aspecto que tenho sérias dificuldades para entender. Sandro Rosell, o presidente do Barça, é citado em um processo de corrupção no Brasil, em um esquema que a Justiça suspeita que ele teria atuado ao lado de Ricardo Teixeira.

Em seus anos na Fifa, Teixeira circulava no luxuoso hotel Baur, em Zurique, na companhia de Rosell. Presenciei inúmeros encontros entre os dois. Na verdade, lembro-me de uma ocasião que chegou a ser patético. Teixeira andava com Rosell por um corredor e, quando me viu, agarrou no braço do catalão e o deu meia volta. O cartola do Barça não entendia o que ocorria, até que Teixeira o disse algo, ambos me olharam e saíram por uma porta lateral. Imagino que os comentários não foram dos mais gentis…

O estranho é que a imprensa catalã praticamente enterrou tudo isso e alguns dos jornalistas chegam a se irritar quando eu os questiono porque é que o caso que fez implodir Teixeira sequer é citado nos meios de comunicação em Barcelona.

Isso sem contar que Rosell é o ex-chefe da Nike no Brasil e que, durante seu mandato, uma CPI chegou a ser aberta para investigar o contrato da empresa com a CBF, justamente de Teixeira. Naquele momento, o líder da investigação era o então deputado Aldo Rebelo, hoje ministro dos Esportes.

 

Mentira 2

O Barcelona é o maior formador de craques do mundo – É quase verdade. Dois dos três melhores jogadores do mundo são do Barça em 2012: Messi e Iniesta. Ambos vieram das escolinhas do clube, a mais que badalada La Masia. Nos últimos anos, o clube fez questão de empurrar ao público a ideia de que não adota o estilo de fazer grandes contratações e nem de gastar fortunas.

Mas essa não é a história completa de como o Barça forma seu time. Parece que poucos se lembram que Ibrahimovic custou 70 milhões de euros ao time e que David Villa foi comprado por 40 milhões de euros. Isso sem contar com Neymar.

A história não para ai. Mesmo no caso da escolinha, considerada até pouco tempo como modelo, a própria Fifa já a questiona. O incômodo problema é que a escolinha estaria contratando jogadores menores de idade, algo proibido.

Em março, a Fifa recebeu uma denúncia anônima sobre seus garotos que teriam sido “roubados” de seus clubes e faziam parte do grupo de base do Barça. Tratava-se do francês Chendri, dos coreanos Lee Seung Woo, Paik Seung-Ho e Jang Gyeolhee, além de Adekanye e Patrice Sousia, de Camarões.

Na realidade, a própria chegada de Messi quando tinha apenas 13 anos foi também cercada de incertezas. Para cumprir a regra, o Barça pediu que o pai de Messi se mudasse para Barcelona, o que justificaria a “contratação” do argentino e simularia que sua própria família já estava vivendo na cidade. O que até hoje não se conta é que foi o Barça quem foi buscar um emprego ao pai de Messi para driblar as autoridades.

Hoje, o esquema é mais sofisticado. O Barça já admitiu que fechou acordos com o Santos e outros clubes no mundo para uma “cooperação” entre as categorias de base. No fundo, não se trata de nada mais que levar bons jogadores quando eles ainda não custam nada. Assim, evitariam ter de passar pela mesma situação de Neymar e ter de pagar por um craque.

 

Imagino que se eu publicasse isso tudo que acabo de citar na Espanha, seria rapidamente classificado de torcedor do Real Madrid ou algo do gênero…Na verdade, o objetivo desse blog não é o de negar que o futebol do Barça é sedutor. Mas apenas reconhecer que o Barcelona é um clube como qualquer outro grande time global.

Sempre que entramos em campo como torcedores ou subimos na tribuna como jornalistas, vivemos no presente o passado daqueles que construíram as histórias de nossos clubes. Mas tão importante quanto saber de onde cada clube vem é olhar de forma objetiva e saber distinguir entre a paixão do futebol e uma ilusão de óptica criada por um imaginário coletivo que insiste em não questionar seus herois.