GRÉCIA: DESGOVERNADA E AGORA TAMBÉM SEM GOVERNO

GRÉCIA: DESGOVERNADA E AGORA TAMBÉM SEM GOVERNO

Jamil Chade

07 Maio 2012 | 07h27

Há poucos meses, o então primeiro-ministro grego, George Papandreou, lançou uma ideia que fez tremer a Europa: consultar o povo grego se o pacote de austeridade e as condições para o resgate internacional eram aceitáveis. Foi classificado em Bruxelas, Paris e Berlim como um “louco” e um “inconsequente”. “Sobretudo, não consulte o povo”, ironizava um deputado grego que entrevistei há poucos meses, enquanto tomava seu café subsidiado no bar do Parlamento em Atenas.

A atitude de Papandreou representou o início de sua queda e, poucas semanas depois, seria substituído por um governo de tecnocratas, de confiança dos credores e sem ideias loucas de “consultar o povo”.

Mas neste domingo, a Europa entendeu finalmente porque a liderança de alguns países e mesmo a Comissão Europeia tinham tanto medo. Os gregos foram às urnas e enviaram um rotundo “não” à austeridade. Hoje pela manhã, alguns jornais em Atenas chegavam a colocar a palavra “nein” em suas capas, numa espécie de mensagem para alemã Angela Merkel, vista pelos gregos como a responsável pelo atual caos e por sua agenda de austeridade.

38 anos de um sistema político no qual os socialistas do Pasok e os conservadores da Nova Democracia se alternavam no poder foram desfeitos. Ninguém chegou a ganhar mais de 18% dos votos e o Parlamento eleito reflete uma cacofonia de vozes políticas, brotadas da frustração da população. Ninguém sabe quem será o primeiro-ministro e muito menos sua base governamental. A Grécia que estava desgovernada, agora está sem governo também.

Em doze países da Europa, a crise levou a uma queda de governos. Mas só na Grécia é que a crise derrbou um sistema e não conseguiu eleger um substituto.

Mas a verdade é que a profunda frustração popular trouxe duas ameaças. A primeira à zona do euro, já que dois terços dos votos foram justamente a partidos contrários às exigências impostas pela Europa, em troca de 240 bilhões de euros e de um calote histórico. Na sexta-feira, o governo alemão havia mandado seu alerta ao povo grego: o governo que for escolhido terá de respeitar os acordos com a UE, sob a pena de ter de “enfrentar as consequências”. Ou seja, sair da zona do euro.  Nesta segunda-feira, o que o mercado quer saber é o que ocorrerá diante do limbo político que vive a Grécia.

A segunda ameaça é a do populismo fascista. O partido Aurora Dourada conseguiu mais de 300 mil votos, suficiente para eleger 21 deputados. O partido, que usa uma suástica adaptada como símbolo e a saudação nazista, ontem deu uma pequena amostra do que está disposto a fazer. Em sua primeira coletiva de imprensa, cabos eleitorais do partido, que mais pareciam seguranças de casas noturnas de quinta categoria, exigiam que os jornalistas presentes se levantassem diante de seu lider, como sinal de respeito. Quem não cumpriu a regra, foi retirado da sala. Ao discursar, a ameaça era ainda mais real. Quem não for um “bom cidadão grego“ deve começar a se preocupar por sua segurança. Quem são esses bons cidadãos gregos…e quem fica de fora…

O lamentável é que ambas ameaças poderiam ter sido evitadas.

A primeira – a do caos no euro – seria frustrada e se o processo de resgate tivesse sido de fato democrático nos últimos dois anos, o que implica que os políticos no poder de fato estivessem representando o povo. Também exigiria das instâncias europeias e de Merkel um reconhecimento de que apenas asfixiar um país financeiramente não solucionará sua crise da dívida. Já são cinco anos de recessão, um quinto da população desempregada e um corte médio dos salários de 25%. São poucas as sociedades que suportariam isso sem uma resposta.

O curioso é o fato de os próprios alemães parecem não entender o impacto em uma sociedade da humilhação e suas consequências políticas. Basta olhar para o Tratado de Versalhes, após a Primeira Guerra Mundial.

Mas a segunda ameaça é ainda mais séria. A eleição de 21 deputados neo-nazistas ao Parlamento coloca em questão a própria visão que a Europa quer ter de si. Que a elite grega errou, promoveu uma corrupção generalizada por anos, promoveu um clientelismo por décadas, viveu além de suas capacidades e mentiu em seus números sobre o déficit para a UE, ninguém tem dúvida. Não há dúvidas de que a crise grega foi cavada por seus próprios políticos e colocar a culpa em Berlim é uma forma fácil de esconder os reais problemas do país.

Mas criar as condições para um outro erro, desta vez ideológico, pode ser ainda mais perigoso. A eleição do grupo não deve ser apenas uma mensagem à elite grega. Mas um alerta a todos os políticos europeus de que o continente vive não apenas a crise da dívida, mas uma crise da gerência da crise.

Nas eleições de ontem, as urnas deixaram uma Grécia sem governo, o que terá de ser negociado nos próximo dias num processo que, paradoxalmente, pode acabar em novas eleições. Mas, acima de tudo, as urnas mostraram que ignorar o impacto social de medidas econômicas pode causar um mal-estar que ameaçaria os próprios valores democráticos.