Interesses comerciais continuam pesando na agenda da seleção

Jamil Chade

08 de outubro de 2012 | 05h35

Quando o novo presidente da CBF, José Maria Marin, assumiu a entidade, prometeu que sua prioridade era ter uma seleção brasileira que pudesse voltar a competir por títulos. Deixou claro que não gostaria de ver agentes vendendo e comprando jogadores nos hotéis onde a seleção se hospeda e pediu para ver a lista de convocados 48 horas antes de seu anúncio, justamente para evitar o uso da camisa do Brasil para fazer elevar o preço de um jogador no mercado internacional.

Mas o que descobriu, seis meses depois, é que está de mãos atadas por acordos já assinados e por um estrutura que vai bem além de suas funções. Hoje, a seleção começa uma turnê pela Europa para realizar dois amistosos. Mas a programação revela a dificuldade de se estabelecer um projeto com base apenas em critérios esportivos.

A seleção chega hoje à cidade de Wroclaw, na Polônia. Faz dois treinos e, na quarta-feira já viaja para a Suécia para seu primeiro amistoso. Mas ele não é contra a Suécia, e sim contra o Iraque, do técnico Zico. A programação oficial da seleção não preve nem sequer um reconhecimento de campo, algo tradicional e quase obrigatório.

Terminada a partida, a seleção toma o mesmo voo fretado e retorna para a Polônia para, no dia 16, enfrentar seu segundo amistoso. Uma vez mais, o jogo não ocorre contra a seleção local. Mas sim contra o Japão. Até o horário da partida foi estabelecida tendo em vista a audiência…no Japão.

A Federação Polonesa de Futebol tentou vetar a partida, apontando que uma lei no país impede que dois jogos internacionais ocorram simultaneamente na Polônia. No mesmo dia, os poloneses jogam contra a Inglaterra em Varsória.

Mas diante da necessidade de arrecadar dinheiro para pagar pelo novo estádio de Wroclaw, até a lei foi ignorada. A cidade foi sede da Eurocopa deste ano e, para erguer um estádio para 42 mil torcedores, gastou R$ 600 milhões. Mas o local foi sede de apenas três jogos e não são poucos os políticos que já temem as consequências do elefante branco erguido numa cidade de apenas 600 mil habitantes. O dinheiro que o jogo Japão x Brasil pagará passou a ser mais que comemorado.

Os amistosos marcam a volta de Kaká à seleção, depois de dois anos de ausência. Mas o que parece permante é mesmo a capacidade de elaborar um programa baseado em critérios que nem sempre estão de acordo com um plano de formar uma seleção para disputar a Copa de 2014 em seu nivel tecnico mais elevado. Isso tudo menos de uma semana depois de a seleção viajar até a Argentina, aquecer, entrar em campo e não poder jogar por falta de luz no estádio.

A turnê da seleção pela Europa promete uma boa renda para muitos agentes envolvidos no futebol. Resta saber se Mano Menezes também terá esse sentimento de ganhos para o time ao final da turnê.

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