Investigação reabre polêmica sobre doping em Copa do Mundo

Jamil Chade

12 Agosto 2013 | 03h04

Uma investigação preparada pelo Senado da França reabre a discussão sobre a existência do doping no futebol e questiona até mesmo as práticas da seleção francesa campeã da Copa de 1998, justamente contra o Brasil.

O informe não conseguiu chegar a uma conclusão sobre o time de Zinedine Zidane e, pelo menos por enquanto, não haveria uma prova final sobre o episódio, que continua sendo um fantasma no esporte francês. Nos últimos dias, a questão do doping voltou a fazer parte dos debates sobre o futebol europeu, com acusações até mesmo sobre a Alemanha de Beckenbauer.

Agora, a mera publicação do informe do senado francês acabou sendo alvo de uma forte polemica que obrigou até mesmo a Fifa a reagir. O relatório foi preparado com o objetivo inicial de avaliar a situação do doping no esporte em geral.

Mas suas conclusões apontam não apenas ao ciclismo ou atletismo e o relatório deixa claro que o problema do doping chegou até o futebol no final dos anos 90.  O que os senadores franceses descobriram, por meio de dezenas de entrevistas e audiências, foi que, se as amostras de sangue ou urina dos ciclistas da Volta da França de 1998 foram conservadas no laboratório de Châtenay-Malabry para permitir que novas investigações fossem realizadas com o passar do mundo, todos os testes realizados na Copa do Mundo daquele mesmo ano na França foram destruídas.

Segundo testemunhas, a ordem para a destruição teria vindo da própria Fifa.  Em sua presença ao Senado para ser interrogado sobre o assunto, a ministra do Esporte da França daqueles anos, Marie-Georges Buffet, confirmou que foi pressionada quando decidiu realizar um teste de surpresa na seleção. “Quando fomos realizar um controle sobre a seleção da França que estava se preparando em Tignes ao final de 1997, a imprensa inteira se virou contra o governo de uma forma violenta, alegando que estávamos dificultando a preparação da seleção”, contou. “A pressão foi muito forte”, disse.

Na época, o técnico da seleção, Aime Jacquet, reagiu indignado diante do controle e forneceu seis de seus jogadores para os exames.  Nas audiências, porém, o médico da seleçao naquela Copa, Jean-Marcel Ferret,  garantiu que os exames foram realizados. “Não recusamos os controles”, disse. O ministério dos Esportes acabaria abandonando os testes. Mas 14 jogadores franceses teriam sido examinados durante a Copa.

O informe do Senado ainda traz informações relativas aos casos de uso de produtos proibidos pela Juventus, no final dos anos 90. O clube italiano tinha em campo os franceses Deschamps e Zidane. Segundo o documento oficial do Senado, a taxa de uma das substâncias no sangue colhido de Deschamps estaria fora do que poderia ser considerado como normal e, para as regras do ciclismo, o teriam impedido de participar da Volta da França. Deschamps foi convocado pelo Senado. Mas, a seu pedido, suas declarações foram dadas à portas fechadas e jamais publicadas.

Ferret, o médico da França, negou que o uso de substancias tivesse ocorrido na seleção e minimizou o problema na Juve. “Sim, a taxa de alguns jogadores estava elevada. Mas elas eram permanentemente altas. Não acredito que eles usassem EPO de forma contínua”, declarou aos senadores.

Reação – Da parte da Fifa, a entidade decidiu rapidamente responder ao informe. Para o médico da entidade, Jiri Dvorak, as leis que combatiam o doping no futebol eram outras em 1998 e que, desde então, a evolução teria sido importante. Para ele,  porém, “não há evidencias de que haja um doping sistemático” no futebol.   O médico admite que, até a Copa de 2002, nao existia um protocolo para a manutenção dos exames e nenhuma federação os guardava após a competição. Segundo ele, os laboratórios credenciados não estavam equipados com locais para estocar essas amostras.

Dvorak revela que o primeiro controle sistemático de exames de sangue ocorreu apenas na Copa de 2002. Hoje, ele garante que a Fifa já iniciou trabalhos para montar o perfil biológico dos atletas, com testes de urina e sangue. A meta da entidade, segundo ele, é que federações regionais possam montar o mesmo banco de dados dos principais clubes. Segundo a Fifa, dos 300 mil testes realizados por ano, entre 70 e 90 casos são detectados. A maioria deles se referem ao consumo de maconha e cocaína.