Itália concede nacionalidade a todos os imigrantes…mortos

Itália concede nacionalidade a todos os imigrantes…mortos

Jamil Chade

06 de outubro de 2013 | 19h43

Quando a hipocrisia parecia que tinha já testado todos os limites, o governo italiano revelou neste fim de semana uma nova dimensão. Roma decretou que daria a nacionalidade italiana aos imigrantes que, na semana passada, viveram mais um tragédia ao cruzar o Mar Mediterrâneo. Mas que o benefício apenas seria concedido aos mortos, como um reconhecimento e uma homenagem.

Até hoje, esse número de “novos italianos” era de 143. Enquanto isso, mais de cem imigrantes que acabaram sendo resgatados com vida serão levados à Justiça. Seus crimes: imigrar sem autorização. Ou teria sido sobreviver?

Numa Itália que criminalizou a ajuda aos náufragos, pouco se fala sobre criminalizar a morte de imigrantes ou proibir a hipocrisia.Entidades, partidos e ativistas de direitos humanos se questionam como é que o acidente pode ter ocorrido. Mas tudo não passa de um jogo de empurra-empurra. Os políticos da ilha de Lampedusa, onde chegam as barcas repletas de imigrantes, culpam Roma. Roma culpa Bruxelas por não adotar uma política migratória mais fraterna.

A maior fraternidade não é.com os imigrantes, mas entre os estados europeus num esforço de convencer mais governos a receber os estrangeiros e não deixá-los apenas nos países que fazem fronteira com a África.

Ativistas denunciam não apenas a hipocrisia do governo em relação à nacionalidade italiana concedida aos mortos, mas alerta que, se nada for feito, o acidente da semana passada num barco que carregava 500 imigrantes certamente irá se repetir.

Não por acaso, a prefeita de Lampedusa, Giusi Nicolini, decidiu abandonar seus esforços com Roma e ir diretamente à União Europeia. Em uma carta, fez apenas uma pergunta: “Qual o tamanho que vocês querem que seja o cemitério da ilha”?

 

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