Liberdade de imprensa é ainda exceção no mundo

Jamil Chade

03 de maio de 2015 | 06h37

GENEBRA – A liberdade de imprensa ainda é uma exceção no mundo, e não a regra. O alerta faz parte das comemorações do dia internacional da liberdade de imprensa, marcadas pela ONU para este domingo, dia 3 de maio.

Pelo mundo, o leitor certamente vai ouvir líderes apelando para que governos e grupos não usem da repressão para lidar com a imprensa e vão insistir que a democracia apenas pode existir se houver uma liberdade de expressão.

Mas segundo um levantamento da entidade Freedom House, nos EUA, de cada 100 habitantes do planeta, apenas 14 vivem em países com liberdade de imprensa, onde jornalistas podem publicar suas histórias sobre política, corrupção, religião ou qualquer outro assunto sem temerem por sua vida, sem ver seus jornais fecharem ou ter sua liberdade assegurada.

2014 e o início de 2015 foram marcados por ataques diretos contra a imprensa, seja a decapitação dos jornalistas James Foley e Steven Sotloff pelo Estado Islâmico, ou os ataques contra a revista Charlie Hebdo. Mas os levantamentos revelam que o problema vai muito além.

Entre maio de 2014 e abril de 2015, um total de 148 jornalistas foram assassinados no mundo. Apenas nos quatro primeiro meses do ano, foram 51 assassinatos. A Líbia liderou a lista, com oito mortos, contra quatro no Iêmen. Na América Latina, seis jornalistas foram mortos no México, Guatemala e Honduras desde o inícíio de 2015.

Mas a repressão não se traduz apenas em assassinatos. O ano foi marcado por uma onda de censura na Venezuela, Turquia, Sérvia e dezenas de outros países.

Nos EUA, a situação também dá sinais alarmantes. Em seu informe anual, a entidade Repórteres Sem Fronteira indicou que a liberdade de imprensa nos EUA sofreu uma forte queda, fazendo o país passar do 20o lugar em 2010 no ranking mundial para a 49a posição. O motivo dessa queda foi o ataque sofrido por jornalistas durante manifestações, pressões contra a imprensa por revelar suas fontes, escutas colocadas em redações de jornais e o fracasso do governo Obama de aprovar uma lei federal para proteger jornalistas.

Nos recentes protestos em Baltimore, cinco jornalistas foram feridos e muitos outros tiveram seus materiais confiscados ou destruídos, segundo o Instituto Poynter.

Neste domingo, a ONU lançou seu alerta: a liberdade da imprensa não é um luxo. “É ela que expõe a injustiça, a corrupção e o abuso de poder”.

Décadas antes, Rui Barbosa resumiu de forma brilhante a mesma avaliação.

“A imprensa é a vista da nação. Por ela é que a Nação acompanha o que lhe passa ao perto e ao longe, enxerga o que lhe malfazem, devassa o que lhe ocultam e tramam, colhe o que lhe sonegam, ou roubam, percebe onde lhe alvejam, ou nodoam, mede o que lhe cerceiam, ou destroem, vela pelo que lhe interessa, e se acautela do que a ameaça. (…) Um país de imprensa degenerada ou degenerescente é, portanto, um país cego e um país miasmado, um país de ideias falsas e sentimentos pervertidos, um país que, explorado na sua consciência, não poderá lutar com os vícios, que lhe exploram as instituições”.