Mar Vermelho

Jamil Chade

03 de outubro de 2013 | 17h53

Em 25 anos, pelo menos 16 mil imigrantes já morreram tentando cruzar o Mediterrâneo

 

De um lado, a África, um continente marcado por guerras, pobreza, fome e doenças. De outro, o continente europeu, com a maior expectativa de vida na história da humanidade. No meio, o mar Mediterrâneo que se transformou numa rota marcada pela morte. Em suas águas, o gosto salgado não é mais das lágrimas de Portugal, como dizia o poeta, mas de milhares de imigrantes que, desesperados, tentam a última chance em botes frágeis em busca de um porto seguro para suas vidas.

Aqueles que conseguem chegar ao outro lado da costa e pisam em terras europeias, descobrem que parte da praia do sul da Itália é revestida pela mesma areia que sopra do Saara. Muitos deles tragaram essa areia no caminho. Mas o vento carrega mais que apenas a areia entre o deserto e a Sicília. Desde a Antiguidade esse vento aproximou os dois continentes e ameaçou travessias. São Paulo teria sido um dos que naufragou nas costas de Malta.

Hoje, o mar Mediterrâneo conheceu mais um drama, com o naufrágio de um barco que trazia 600 imigrantes à costa Sul da Itália. O acidente gerou a reação consternada da ONU, um apelo do papa Francisco, o choro desesperado do prefeito de Lampedusa ao recolher os corpos e o reforço dos comentários de imigrantes que o Mediterrâneo é o verdadeiro Mar Vermelho – de sangue.

A realidade é que  o incidente foi apenas um entre dezenas de casos. A ONU estima que, em 25 anos, 16 mil pessoas morreram tentando cruzar de barco o Mediterrâneo, principalmente em direção à ilha de Lampedusa. Só em 2011, mais de 1,5 mil pessoas morreram. O que mais surpreende a entidade é que nem todos morreram afogados. Um informe preparado pela ONU revela um número significativo de vítima que morre na travessia de sede ou torturados por contrabandistas. Outros acabam de fato morrendo afogados. Mas não por naufrágio, mas tentando escapar de barcos da guarda costeira da Itália.

A ilha fica mais perto do continente africano que da costa europeia e apenas 70 quilômetros separa o local da Líbia. Mas é esse trecho de mar que representa ao mesmo tempo a esperança e a morte, enquanto contrabandistas e o crime organizado ganha milhões ao organizar a travessia para essa população. Não por acaso, o papa Francisco chamou a região de “encruzilhada do mundo rico e pobre” e classificou o acidente desta semana de “vergonha”.

Uma parte da Europa achava que poderia acabar com a imigração militarizando sua fronteira. O temor não é de uma invasão de um exército bem treinado, Mas de milhares de miseráveis em busca de uma vida. O continente criou e inundou de dinheiro uma agência para proteger suas fronteiras, a Frontex.

Nos últimos anos, Roma, Berlim, Paris e outras capitais fecharam acordos até mesmo com ditadores africanos para tentar manter esses imigrantes em suas terras. Em troca da ajuda a esses governos para controlar a fuga de sua população, os governos europeus ganharam contratos milionários para a exploração de minas de urânio e metais preciosos.

O governo alemão sugeriu que a Europa pagasse pela manutenção de campo de refugiados. Mas que esses locais fossem instalados no Norte da África, e não na Europa. Roma, por exemplo, passou a fornecer barcos e treinamento às Marinhas dos ditadores da Tunísia, Líbia e Egito para patrulhar suas costas e impedir que esses barcos com imigrantes saiam ao mar.

Só não previam que milhares de desesperados continuariam a tentar a sorte e atravessar o Mediterrâneo. A realidade, no fundo, é clara: muros e exércitos não irão impedir a imigração enquanto a miséria empurrar populações inteiras a arriscar suas vidas por uma travessia.

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