Merkel, a única sobrevivente da crise europeia

Jamil Chade

23 de setembro de 2013 | 05h54

Nos primeiros dias da crise econômica mundial, entrevistei o ex-primeiro-ministro da Islândia,Geir Haarde, que de forma sumária foi derrubado de seu cargo quando seu país derreteu. Sua mensagem foi clara: “muitos outros governos pela Europa também cairão”.

De fato, ele tinha razão. Zapatero na Espanha, Berlusconi e depois Mario Monti na Itália, Papandreu na Grécia, Sarkozy na França, Portugal, Irlanda, Mirek Topolanek na República Tcheca. Ninguém sobreviveu.

Nas urnas, milhões de europeus votaram por retirar esses líderes do poder, como uma punição à crise da gestão da crise.

Mas uma delas sobreviveu e, na verdade, até ganhou terreno. Angela Merkel se vendeu como a “grande mãe” dos alemães. No fim de semana, ganhou seu terceiro mandato, algo que não ocorria na Alemanha desde os anos 50 e Konrad Adenauer. Entre os diversos recados dados por Merkel durante a campanha, todos se resumiam à mesma coisa: “Se eu ficar, a tranquilidade permanecerá”.

Merkel, com a chave do cofre da Europa na mão, fez questão de condicionar seus resgates aos demais países a uma “germanização” do receituário econômico do continente. A austeridade foi central em suas exigências, enquanto economias se asfixiavam e as filas de desempregados em Madri, Atenas e Lisboa aumentavam a cada dia.

No resto da Europa, a esperança de milhões de pessoas e de vários governos é de que, uma vez concluída a eleição, Merkel não terá de ganhar votos de seus eleitores e poderá atender às necessidades de outros cidadãos europeus. A esperança é de que ela suavizará suas exigências de austeridade e aceitará que, numa Europa com diversos níveis de desenvolvimento e competitividade, um receituário único não resolverá. Só o tempo dirá.

No sul da Europa, jornais nesta segunda-feira apontam que, de fato, Merkel é a única sobrevivente da crise. Mas ironizam: qual foi o preço disso?