Moeda chinesa: o dólar do ano 2050?

Jamil Chade

28 Fevereiro 2014 | 07h03

GENEBRA – A história mostra que a emergência de uma potência trouxe consigo sempre o surgimento de uma nova moeda de referência internacional. E, uma vez mais, a história da sinais de que pode se repetir. A China, que neste ano se transformou na maior potência comercial do mundo, vê agora sua moeda tambem ganhar cada vez mais espaço internacional.

Pela primeira vez, o yuan superou o tradicional franco suíço e passou a ser a sétima moeda mais usada para pagamentos internacionais. Os dados são da Swift, que destaca o rápido avanço da moeda de Pequim como uma nova referência.

O ranking das moedas mais usadas é ainda fortemente dominado pelo dólar, com 38% dos pagamentos mundiais sendo feitos na moeda americana. O bilhete verde é seguido pelo euro, com 33%, a libra esterlina com 9,3% e o yen, com 2,4%.

O yuan, em sétimo lugar, movimenta ainda uma ínfima parte  do mercado mundial, com 1,39%. Mas é o avanço do yuan que mais surpreende analistas. Antes de superar o franco, conhecido tradicionalmente como uma moeda de refúgio e um dos principais centros financeiros do planeta, o yuan já havia deslocado a moeda de Cingapura e de Hong Kong no mercado mundial.

Em apenas três anos, a moeda chinesa superou outras 22 moedas pelo mundo para chegar à posição que está hoje. Em apenas um ano, passou de 0,6% do mercado mundial para 1,39%. Em poucos meses, os chineses devem superar o dólar australiano, que representa 1,75% dos pagamentos mundiais, e o dólar canadense, que representa 1,80%. O real sequer aparece entre as 20 moedas mais usadas no mundo.

Por enquanto, seu uso do yuan está fortemente concentrado em Hong Kong, onde tem 73% do mercado. Mas a transformação do yuan – ou RMB – em uma referência internacional é uma política deliberada dos chineses. Pequim iniciou uma série de reformas para permitir que isso ocorra e analistas e bancos apostam que antes do final da década a posição da moeda chinesa será significativa.

Nos EUA, a moeda chinesa também ganha espaço. Em janeiro de 2013, ela representa 4,1% dos pagamentos. Agora, já ocupa 7,3% do mercado.

“Ao observarmos o primeiro mês de 2014, que apresentou um valor recorde de pagamentos em RMB, fica claro que a moeda chinesa deve se manter entre as dez maiores moedas de pagamentos globais”, disse Michael Moon, diretor de Mercados de Pagamento da SWIFT para o Pacífico Asiático.

“Hong Kong permanece como maior polo do RMB, e acreditamos que a expansão desse mercado como um todo levará a um forte crescimento nos centros internacionais, como EUA e Taiwan. Esses novos mercados internacionais desempenham um papel importante para que o RMB mantenha seu status de moeda de pagamentos globais ‘corriqueira’”, disse.

Corrida – Enquanto o yuan ganha espaço, os tradicionais centros financeiros do Ocidente abrem uma disputa sobre quem será o centro do comércio da moeda chinesa. Suíços e britânicos proliferam medidas para atrair não apenas bancos chineses para suas praças financeiras, mas também começam a tomar iniciativas para permitir que a moeda asiática possa ser comercializada por bancos ocidentais.

Enquanto os bancos suíços incentivam seus funcionários a tomar aulas de mandarim, os britânicos falam abertamente que, no espaço de uma geração, o yuan será tão forte e presente quanto o dólar.

Segundo a Associação de Banqueiros Suíços, o Banco Central do país alpino está em negociações para abrir uma linha de crédito diretamente com a China e permitir que bancos chineses possam se instalar na Suíça. “Queremos ser o centro para o yuan”, declarou Claude Alain Margelisch, presidente do Comitê Executivo da poderosa Associação de Banqueiros Suíços. Sua meta é a de permitir que empresas ocidentais possam fazer negócios na moeda chinesa, usando um centro financeiro Ocidental.

Londres, Frankfurt e Luxemburgo também estão na ofensiva para ocupar esse posto de “hub” do yuan. De fato, o governo britânico anunciou medidas para permitir que empresas chinesas possam investir na China diretamente em yuan, com um total colocado à disposição pelo governo no valor de 80 bilhões de yuan, cerca de US$ 13 bilhões.