Mulheres, uni-vos, esta luta é de todas nós.

Jamil Chade

03 de novembro de 2015 | 19h26

A partir de hoje, abro com muito orgulho esse meu blog ao movimento #AgoraÉQueSãoElas.

A cada dia, uma convidada usará este espaço. Serão mulheres do mundo acadêmico, grandes jornalistas, jovens promessas, mulheres refugiadas e cantoras.

Para dar início, o espaço é da brilhante professora Marília Carolina Souza. Ela traz um tema da maior relevância e conclui com um chamado que resume a batalha: “Mulheres, uni-vos, esta luta é de todas nós”.

 

Mulheres do Tráfico

Por Marília Carolina Souza

As mulheres sempre tiveram muito pouco espaço na mídia. Elas geralmente dão apoio técnico ou cobertura e servem de bastidores para a produção de grandes filmes, grandes livros, grandes discursos politicos e grandes feitos em geral. Seus direitos, tão arduamente conquistados, têm sido sistematicamente arrancados, como nos tem lembrado, entre tantas mulheres, Manoela Miklos em cujo projeto #AgoraÉQueSãoElas não pude deixar de participar.

Pensei em mil maneiras de abordar o tema do machismo no Brasil. E preferi, por hora, abordá-lo sob o prisma das drogas.

É aqui que entra a minha história. já que pude ter acesso à educação de qualidade e a tantos outros meios, estou concluindo o meu doutorado sobre o tema da violência na América do Sul, e não é de qualquer violência, falo da violência estrutural, causada pela falta de acesso à terra, a bens de produção, a alternativas econômicas sustentáveis, e da violência causada pelo tráfico de drogas. E as maiores vítimas das drogas são as mulheres. E a sociedade sistematicamente culpabiliza a mulher quando se tratam das drogas.

As mulheres são esposas de traficantes de drogas, são filhas do tráfico ou mais profundamente, são mães de traficantes. Elas se aprisionam do lado de fora e são submetidas semanalmente à vexatória vistoria íntima e temem ver seus filhos ou maridos pela última vez, pois, a cada vez que vão à prisão temem que seus entes sejam mortos no cárcere. O local que deveria ser feito para reintegrar as pessoas à sociedade, é feito para desintegrar, pois quando saem vivos, saem estruturalmente modificados. Frequentemente, quando estes homens vão presos, não há Estado, não há alternativa econômica, e elas entram no tráfico, mesmo porque são obrigadas a faze-lo, por parte do crime organizado, em troca de segurança e de algum trocado. Estado pra que e pra quem?

Estas mulheres tem outros filhos em casa temem perder mais um, ou dois ou três, para o tráfico de drogas e para o sistema que não deu meios e não deu alternativas, mas sim fez uma “seleção natural”, fazendo com que seus filhos sejam os fornecedores, enquanto os filhos ou maridos de outras mulheres sejam os “consumidores” desta mesma droga. Para algumas mulheres, acompanhar os noticiários é dizer: “Esses bandidos precisam morrer”, e cabe à mulher do tráfico apenas o silêncio, já que falar, no nosso país, pode levar ao desemprego, à violência moral e física e. em muitos casos, ao estupro e à morte.

Mas que força teria esta mulher que, ao ser retratada pela televisão, o é por meio da reificação, da mulher-objeto; ao ser noticiada pelos telejornais, é conivente, cúmplice e culpada do crime: “Ela não educou direito”, “Onde estava a mãe?”, entre tantas outras injustiças. Ao ser estudada e pensada na Escola, abre-se um silêncio, pois as Escolas aindam não tratam das questões de gênero, e por fim; quando mulheres se empoderam e passam a ocupar seus tão raros e pequenos lugares, elas se calam, porque mulheres defendendo outras mulheres, sobretudo, as negras, pobres e vítimas do tráfico; são subversivas e podem não ser bem vistas pela sociedade, e, no limite, pelos homens, grande parte consumidora final desta corrente tão injusta como é a lógica da produção, venda e consumo de drogas no país e na América Latina como um todo. Mulheres, uni-vos, esta luta é de todas nós.

Marília Carolina Souza

Doutoranda em Relações Internacionais pelo San Tiago Dantas UNESP, UNICAMP e PUC-SP

Professora de Relações Internacionais pela Universidade Anhembi Morumbi e FECAP-SP

Pesquisadora do IEEI-UNESP e NUPRI-USP