Na Europa, prefeitura lista alunos muçulmanos na escola e abre crise

Jamil Chade

06 de maio de 2015 | 04h40

GENEBRA – Há um bom tempo que a Europa perdeu a vergonha de ser racista. Agora, as atitudes chegaram a uma cidade francesa que decidiu fichar os alunos de origem muçulmana em suas escolas. Na cidade de Béziers, o prefeito de extrema-direita, decidiu fazer um levantamento do número de crianças em cada classe para saber quem não era cristão. Mas o mais chocante foi a metodologia usada: o levantamento foi feito a partir do nome de cada menor.

Fichar alunos por sua origem étnica é ilegal na França e, hoje, o Ministério Público abriu uma investigação para saber o que de fato ocorreu. O prefeito, Robert Menard, garante que não existe uma lista de nomes e que o levantamento apenas trás estatísticas para “ajudar os alunos”.

A crise eclodiu na segunda-feira pela noite, em um programa de televisão na França. Menard, que foi o fundador da entidade Repórteres Sem Fronteira, indicou que 64% dos alunos de suas escolas eram muçulmanos. “Perdão por dizer que a prefeitura tem, classe por classe, os nomes das crianças. Eu sei que não tenho direito. Mas fiz de todo jeito”, declarou. “Os nomes revelam a confissão”, continuou o prefeito de extrema-direita.

“Dizer o contrário é negar a evidência. Se teu nome é Mohamed, é certamente porque você é….”, disse, sem completar a frase. Um dia depois, Menard negou que teria fichado cada aluno. Mas admitiu a existência das estatísticas. O caso gerou duras críticas por parte do governo de François Hollande.

Mas a realidade é que o debate está lançado: deveria a Europa fichar quem é muçulmano? E como seria feito isso? Se for com base no nome, até gostaria de saber se um eventual “Jamil” numa escola seria automaticamente colocado entre os muçulmanos.

E o que seria feito com a estatística? As famílias cristãs, brancas e “europeias” poderiam solicitar a lista para decidir em que escola iriam?

E as universidades, poderiam ter acesso a essas fichas para saber quem é que vão aceitar no futuro?

Não sei se é pelo fato de eu ser pai de dois “estrangeiros” em escolas europeias, ou simplesmente por senso comum, a realidade é que a Europa derrapa a cada dia em sua promessa de manter a república, o estado laico, a não-discriminação como pilar de sua democracia.

70 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial – data que será comemorada nesta sexta-feira – ouso dizer que, no lugar de fichar alunos nas escolas, prefeitos deveriam reforçar as aulas de história. Principalmente os capítulos que mostram como certas étnicas e religiões foram fichados no passado. E exterminados logo depois.