Ninguém é “ilegal”

Jamil Chade

26 de agosto de 2015 | 15h27

No último fim de semana, dois neonazistas criaram um escândalo dentro de um trem ao mijar sobre crianças na Alemanha. Elas eram estrangeiras.

Nesta semana, a Hungria anunciou que está acelerando as obras para a construção de um muro que a separa da Sérvia e, claro, de milhares de imigrantes que tentam entrar na Europa pelas portas húngaras. Ironicamente, o anúncio de pressa na construção dos últimos 65 quilômetros de muro de um total 175 quilômetros também acelerou o ritmo de pessoas tentando chegar até o local.

Na Eslováquia, o governo deixou claro que está disposto a receber refugiados. Desde que sejam cristãos.

Na Alemanha, mais de 200 atos de xenofobia foram registrados desde janeiro e, hoje, quando a chanceler Angela Merkel visitou um centro de acolhimento de refugiados perto da fronteira, foi hostilizada por grupos de extrema-direita, que a chamam de “traidora”.

Na Macedônia, o governo usou gás lacrimogêneo para frear a entrada de pessoas pela Grécia. Na Bulgária, as autoridades mandaram tanques blindados para as fronteiras. O temor não era uma invasão de forças estrangeiras. Mas de miseráveis estrangeiros, fugindo da morte em seus países de origem.

A Europa vive hoje uma profunda crise moral. O continente que por anos se apresentou ao mundo com o bastião dos direitos humanos hoje sofre para acolher aqueles que apenas pedem que seus direitos sejam respeitados. Os números de pessoas chegando às fronteiras explodem e superam todas as projeções.

O “problema” é real. Os sistemas de saúde são de fato colocados sob pressão para atender a todos. Em certos bairros de cidades francesas, as escolas contam com um número maior de nomes como Ahmed e Mohamed que de Pierre e Luc.

Mas a ONU alerta que esse fluxo não vai perder força, pelo menos enquanto as guerras e crises na Síria, Iraque, Afeganistão, Somália e Eritreia não sejam resolvidas. Sem um plano, a Europa joga essas pessoas de um lado para o outro de suas fronteiras, manipulados por interesses eleitorais e promessas de campanha.

Doente, a Europa não sabe o que fazer diante da onda de imigração. Governos afirmam que não tem como receber “o mundo inteiro” em suas casas. Só não explicam a suas populações que o Líbano, com 4 milhões de pessoas, teve a capacidade de receber 1 milhão de refugiados em quatro anos. Com 500 milhões de pessoas, o continente europeu debate se recebe 40 mil ou 60 mil pedidos de asilo extras. A França chega a ficar orgulhosa em ter recebido 5 mil pessoas, o equivalente a dois dias de fluxo pela fronteira da Macedônia.

Doente, a Europa se recusa a se confrontar com a nova realidade do fluxo de refugiados e fecha os livros de história nos capítulos que mostram que, graças à generosidade de outras sociedades, milhões de famílias europeias sobreviveram a massacres.

Naquele momento, aqueles espanhóis, franceses, alemães, portugueses e italianos não eram “ilegais”. Mas refugiados ou imigrantes “irregulares”.

O princípio de que “ninguém é ilegal” precisa valer no século XXI também. Afinal, que crime ou ilegalidade cometeu um pai sírio ao abandonar tudo o que construiu para salvar sua família?

Que crime cometeu uma mãe iraquiana ao correr por sua vida e de seus filhos depois da morte do marido? Que crime comete aquele afegão que quer o direito de viver?

Ninguém é “ilegal”.