Nos escombros da guerra, o amor improvável.

Nos escombros da guerra, o amor improvável.

Jamil Chade

10 Setembro 2015 | 06h26

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BUDAPESTE – Em meio ao caos e desespero de milhares de pessoas, o choro de crianças exaustas, de ordens da polícia húngara e de homens ao ponto de um colapso nervoso, um casal apaixonado se deu conta que, à medida que a fila andava para pegar um trem de Budapeste para Munique, era uma própria saga pessoal de meses que estava chegando a um fim.

Quando passaram a ser os primeiros na longa fila e estavam diante da barreira formada pelas forças de ordem com suas máscaras higiênicas, os dois se abraçaram e, com um olha de confidentes, sorriam em silêncio. Do outro lado, os vagões de um trem que deixaria a Hungria em direção à Alemanha.

Aya, de 20 anos, e Waseem Hamza, de 27, sobreviveram à guerra na Síria. Não se conheciam e, se não fosse pela guerra, provavelmente jamais teria sabido da existência mútua. Mas o conflito e o destino os levaram ao mesmo lugar, a Turquia. Ali, se conheceram há seis meses e, na semana passada, Aya recebeu duas propostas inesperadas de Waseem: casar-se e fugir. Desta vez, para a Europa. “Eu disse sim na hora, para as duas coisas”, contou a noiva ao Estado.

A “cerimônia” foi simples. Cada um colocou sua melhor roupa, Waseem comprou dois anéis e, na presença apenas da mãe e da irmã caçula da noiva, se declararam marido e mulher. Como presente, Aya ganhou uma Pantera Cor de Rosa de pelúcia.

Dois dias depois, numa madrugada, os dois chegaram até um porto clandestino na costa da Turquia e, com mais 54 pessoas, embaraçaram em um bote de plástico rumo à Grécia. “Eu queria me casar antes de morrer”, disse o noivo.

Por alguns instantes, a premonição de Waseem parecia que poderia se confirmar. “Caímos ao mar e eu fiquei pelo menos 15 minutos na água sem conseguir chegar de volta ao barco”, contou.

Quando finalmente as pessoas que haviam caído conseguiram ser resgatadas, o motor do barco parou. “Ficamos horas à deriva”, disse a noiva. O barco seria resgatado pela marinha grega e levados à Atenas. “Dali começamos o trajeto pela Europa e finalmente chegamos à Hungria. Não imaginava que seria tão difícil. Mas, hoje, finalmente, vamos embarcar em nosso último trem para a Alemanha”, comemorava Waseem.

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O sorriso no rosto dos dois noivos não era por acaso. Waseem ficou sitiado em um prédio no centro de Homs por três meses. De um lado, o Estado Islâmico. De outro, as tropas do governo de Bashar Al Assad. Em vários momentos, pensou que iria morrer. Mas conseguiu ser retirado dos escombros de um dos locais onde estava vivendo e, sem saber seu destino, foi levado por pessoas que ele sequer conhecia para a Turquia. “Eles não me disseram para onde eu ia até que cruzamos a fronteira”, contou.

Aya já tinha abandonado Damasco quando a guerra se intensificou e, junto com sua mãe e uma irmã pequena, também encontrou refúgio na Turquia.

Ontem, na estação de Keleti, em Budapeste, estavam prestes a começar o último trajeto de sua longa viagem. Planos não faltam. Aya, que significa “Milagre”, quer estudar e ter “uma profissão”. “Qual? Qualquer uma”, disse. Waseem quer encontrar trabalho. “Filhos? Por enquanto não. Vamos primeiro arrumar nosso futuro”, disse o noivo.

Questionados sobre a cidade que pretendiam ir na Alemanha, eis que surgiu o primeiro sinal de um verdadeiro matrimônio. “Eu quero ir para Berlim. Mas acho que é a Aya quem vai decidir”, riu Waseem.

 

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