Novo acordo da Europa ameaça prejudicar exportações do Mercosul

Jamil Chade

21 de outubro de 2013 | 06h18

Bloco assinou tratado com Canadá, concorrente direto do Mercosul no setor agrícola

 

GENEBRA – Sem acordo bilaterais, o Mercosul começa a perder espaço até mesmo na agricultura para outros fornecedores em diversos mercados pelo mundo. No fim de semana, a União Europeia fechou um acordo de livre comércio com o Canadá, concorrente direto de Brasil e Argentina no mercado agrícola mundial.

Com tratamento especial para a agricultura, Ottawa deve deslocar no mercado uma parcela do consumo que é hoje ocupado por Brasil e Argentina. Em 20 anos, o Mercosul assinou apenas três acordos comerciais, enquanto governos de todo o mundo proliferaram entendimentos com seus maiores parceiros e começam a afetar as exportações brasileiras.

Ha poucos anos, o Brasil superou o Canadá e passou a ser o terceiro maior exportador agrícola mundial. Mas, em diversos setores, os dois países competem diretamente por mercados. Agora, com o acordo, exportadores de carne do Canadá terão livre acesso ao mercado europeu, prejudicando as vendas brasileiras.

A mesma situação ameaça a Argentina no setor de trigo. O produto sul-americano é obrigado a pagar altas taxas para entrar no mercado europeu. Agora, terá de competir com o trigo canadense que ficará isento de tarifas no mercado europeu.

O acordo entre europeus e canadenses foi fechado depois de apenas quatro anos de negociação. No caso do acordo Mercosul-UE, o processo já dura doze anos e sem um prazo ainda.

No acordo canadense, 98% das linhas tarifárias serão abolidas já no primeiro dia de entrada em vigor do tratado. Para os europeus, o acordo abre espaço para uma maior exportação de carros, texteis e outros produtos. Já para os canadenses, o acordo deve beneficiar acima de tudo os exportadores de carnes e trigo.

50 mil toneladas de carne bovina canadense entrarão na Europa sem qualquer tarifa, enquanto a carne do Mercosul é obrigada a pagar taxas de mais de 20%. 80 mil toneladas de carne suína canadense também entrarão livres de impostos, enquanto o Brasil hoje nao exporta uma tonelada sequer. No total, os europeus irao eliminar tarifas para 94% de suas linhas tarifárias para produtos exportados pelo Canadá, incluindo trigo.

“Esse acordo é muito importante para os fazendeiros canadenses”, indicou Levi Wood, presidente da Associação de Produtores de Trigo do Canadá. “Não apenas veremos maios acesso a mercados para graos como também exportadores de carne ganharão”, indicou.

“A remoção das barreiras, como tarifas, finalmente permitirá que produtores canadenses sejam beneficiados do mercado europeu”, indicou Martin Unrau, representante da Associação de Pecuaristas do Canadá.

Outros exportadores brasileiros também podem perder. A UE vai acabar com tarifas sobre metais e produtos de mineração, além de facilitar os procedimentos para que empresas canadenses possam participar de licitações para obras públicas, um mercado também de interesse de grandes construtores brasileiras.

“Esse acordo é uma vitória histórica para o Canadá”, declarou o primeiro-ministro Stephen Harper. José Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia, acredita que o comércio bilateral aumentará em 23%, para um total de 26 bilhões de euros.

 

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