O enterro de Lenin

O enterro de Lenin

Jamil Chade

28 de outubro de 2009 | 18h14

1986-1989

Mogosoaia, Romênia – Se em uma guerra a primeira vítima é a verdade, em uma revolução uma das primeiras vítimas são os símbolos do regime que está sendo derrubado. Assim ocorreu com a estátua de Saddam Hussein em Bagdá e assim ocorreu em tantos outros lugares do mundo. Na Praça da Estrela, no centro de Bucareste, Lenin era um marco. Com sua serenidade, relembrava aos romenos a base do sistema que viveram por 50 anos.

Lenin era o principal ornamento de um bairro onde estava o imponente edifício da Agência Nacional de Informações da Romênia, absolutamente controlada pelo regime de Nicolae Ceausescu. Uma ex-funcionária da agência conta que estava instruída a reproduzir qualquer comentário positivo publicado pela imprensa estrangeira sobre o país ou sobre “o grande líder”. Mas jamais uma notícia negativa.

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Com a revolução de 1989, não foi por acaso que uma das primeiras vítimas foi exatamente a estátua de Lenin. Ela foi derrubada antes mesmo do julgamento do ditador, que ocorreria três dias depois. Outras estátuas também foram destruídas e hoje, em Bucareste, símbolos comunistas são proibidos.

Mas para onde estas estátuas foram levadas… Quem as carregou para longe da cidade e o que foi feito delas… Com a ajuda de personalidades importantes do mundo da política, consegui encontrá-las: Lenin está enterrado – ou melhor, largado – em um campo 30 minutos fora da cidade, na cidade de Mogosoaia. Poucos são os romenos que conhecem o local.

Ao lado de Lenin estão os muros de um dos palácios da aristocracia que o regime tanto fez para eliminar. A estátua está vandalizada e destruída. O cultivo de trigo chega quase a seu queixo. Algumas das estátuas estão em uma posição que aparentam que estão pedindo socorro à capela que se encontra ao lado. Uma ironia da história.

 20 anos após a queda do regime na Romênia, o Partido Comunista está banido. Mas todos aqueles políticos e membros da polícia secreta que atuaram no país por décadas hoje ganharam uma nova sigla e agora concorrem a eleições democráticas. A praça onde estava Lenin – a Praça da Estrela – hoje ganhou um novo nome: Praça da Imprensa Livre. Ironicamente, um dos magnatas da imprensa romena hoje é nada mais nada menos que um dos altos funcionários da polícia secreta de Ceausescu, entidade responsável por torturas, ameaças contra jornalistas e mais de 10 mil mortes nos 21 anos do regime do ditador. Viva a Revolução!

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