O que o regime militar brasileiro e Fidel Castro tem em comum?

O que o regime militar brasileiro e Fidel Castro tem em comum?

Jamil Chade

04 Maio 2016 | 08h11

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GENEBRA – O que o regime militar brasileiro de direita e aplaudido pelos EUA teve em comum com o regime comunista de Fidel Castro em Cuba? Os dois governos foram os únicos em todo o continente que, no auge da repressão, impediram que o Comitê Internacional da Cruz Vermelha visitassem suas prisões.

Quem faz o alerta é a própria entidade com sede em Genebra. Cansada de ser iludida pelos militares brasileiros por anos sobre a possibilidade de realizar uma visita às prisões, os dirigentes da organização indicaram em uma carta que, ainda que o papel do CICV fosse primordialmente autorizado em tempos de guerra, havia um consenso cada vez maior de que, em tempos de paz, o mandato também poderia ser cumprido.

Numa carta de 6 de setembro de 1973 ao ministro da Justiça do governo Médico, Alfredo Buzaid, a direção nacional da Cruz Vermelha cobrou a autorização para realizar as inspeções nas prisões. «Nas Américas, apenas dois países ainda não as permitem : Brasil e Cuba », escreveu, numa clara tentativa de envergonhar um governo que insistia em denunciar a ameaça comunista que representava Castro.

O próprio Médici teria sido alertado sobre esse ponto em comum entre ele e o regime cubano. « Preocupados com essa situação, mencionamos o fato ao Excelentíssimo Senhor Presidente da República », relembrou a carta.

O Estado teve acesso a centenas de páginas de documentos dos arquivos do Comitê Internacional da Cruz Vermelha que, de forma inédita, apresentam detalhes do regime militar brasileiro entre 1965 e 1975. Os arquivos estavam fechados e nem a Comissão Nacional da Verdade foi autorizada a ter acesso ao material enquanto realizou seu trabalho.

Este blog, a cada dia desta semana, trará uma parte dessa história, com arquivos que trazem detalhes inéditos das torturas praticadas sobre os prisioneiros políticos.

Ao tentar convencer o Brasil de aceitar sua visita, o CICV insistiu ainda que prometeria que faria apenas um relatório confidencial desses locais e que, por esse caráter sigiloso, « jamais teve qualquer problema com os países cujas prisões vem sendo visitadas ».

Mas, numa simples carta, revelou algo que George Orwell bem resumiu: “The real division is not between conservatives and revolutionaries but between authoritarians and libertarians.”