O que terá de mudar para 2014

Jamil Chade

23 Junho 2013 | 10h19

Além da segurança, diversos setores terão de passar por reformas para 2014

 

RIO DE JANEIRO – Por trás da fumaça das bombas lançadas pela polícia, o cenário que se descobriu das cidades-sede da Copa revela que muita coisa ainda precisa ser feita para o Mundial de 2014, mesmo que toda a questão da segurança seja resolvida até lá. Depois da primeira semana de testes reais para os estádios, o Estado conversou com técnicos da Fifa e do comitê de organização da Copa. A constatação de todos é de que, em um ano, o Brasil terá de acelerar o ritmo de sua preparação para garantir que um evento com 32 seleções e 600 mil estrangeiros possa de fato ocorrer.

Durante a Copa das Confederações, apenas seis dos doze estádios estão sendo usados e, mesmo assim, alguns deles foram entregues fora do prazo. Para os técnicos da Fifa, é justamente essa realidade que abre espaço para vários problemas.

Não por acaso, a Fifa exige que os demais seis estádios estejam concluídos até o final do ano, dando assim tempo para que todas as obras e todos os testes sejam realizados. “O fim de 2013 é o prazo final. Não há mais negociação”, prometeu Jerome Valcke, secretário-geral da Fifa.

 

Grama – Um dos problemas destacados até mesmo por Valcke foi a qualidade dos gramados, considerados como insuficientes para uma Copa do Mundo. O problema chegou a gerar críticas por parte de algumas seleções, preocupadas com os buracos que se formaram nos campos.

O caso mais grave foi o do estádio de Brasília, um dos dez mais caros do mundo e que implementou uma grama que custou mais de R$ 9,5 milhões. A Fifa abriu uma exceção por conta do atraso e permitiu que a grama fosse instalada, no lugar de uma grama plantada. Mas o sistema não resistiu a nem mesmo um jogo inteiro. Ao final da abertura entre Brasil e Japão, a situação do gramado era crítica. O próprio Valcke respirou aliviado diante do fato de que o estádio sediará apenas um jogo do evento – a abertura. “Não teríamos condições de ter um segundo jogo”, disse.

Outro que demonstrou sérios problemas foi o gramado do novo Maracanã, que custará R$ 100 mil por mês para ser mantido. Bastaram dois jogos para que os funcionários do estádio entrassem em campo para aplicar um spray nos locais mais desgastados, dando a impressão para as câmeras de que tudo estava verde.

Valcke insiste que, se tivesse tido mais tempo entre a construção do estádio e os primeiros jogos, isso não teria ocorrido. “É por esse motivo que estamos insistindo tanto para que os demais estádios estejam prontos dentro do prazo, justamente para deixar um tempo suficiente para que a grama possa crescer de forma adequada”, explicou.

 

Tecnologia – Se em campo o problema é a grama, nas arquibancadas o problema é o silêncio dos celulares. O Ministério das Comunicações admitiu nesta semana que até mesmo a cúpula do governo teve sérias dificuldades para fazer seus telefones funcionarem dentro dos estádios, depois de gastar mais de R$ 200 milhões em infra-estrutura.

Uma vez mais, a culpa seria do atraso dos estádios que impediu que cabos fossem implementados a tempo. Por enquanto, a exigência do governo para as operadoras é de que pelo menos 50% das cidades-sedes tenham o sistema 4G funcionando.

Assim que a Copa terminar, o governo promete realizar uma reunião com as operadoras e com a Fifa para debater uma forma de garantir que, para os doze estádios de 2014, o sistema funcione.

 

Ingressos – Talvez um dos maiores problemas foi a distribuição de entradas. O sistema adotado pela Fifa foi reprovado pela própria organização, que viu filas se ampliarem e sofreu até mesmo com a queda no sistema informático.

O que mais preocupa os organizadores é que, na Copa do Mundo, o número vendido de ingressos será quatro vezes maior que no atual torneio e que pelo menos 600 mil estrangeiros desembarcarão no Brasil.

Os ingressos começarão a ser vendidos em agosto e a Fifa já admite que, para a entrega, terá de montar um novo esquema, com mais pontos de distribuição.

 

Hotel – Outro fator que preocupa é a rede hoteleira. Para a Copa do Mundo, dezenas de hotéis pelo Brasil receberam importantes isenções fiscais, justamente para conseguir manter os preços sob controle.

Mas um levantamento publicado nesta semana revelou que muitos deles aumentaram suas tarifas em 300% apenas para a Copa das Confederações, torneio menor e que praticamente não contou com estrangeiros.

O temor dos organizadores é de que os pacotes montados para a Copa em 2014 tenham preços inflacionados, afetando inclusive a capacidade do Brasil em receber os torcedores estrangeiros.

 

Transporte – Por fim, outro problema foi a questão do transporte entre os locais centrais de cidades, aeroportos e estádios. Em muitas delas, torcedores, jornalistas estrangeiros e funcionários da Fifa ficaram mais de duas horas presos no trânsito, além de enfrentar problemas para chegar a alguns dos estádios.

Nos próprios estádios, as filas que se formaram nos metrôs e nos portões de entrada também foram criticadas e precisarão passar por melhorias.

Para a Fifa, esse será o principal foco das preparações para 2014, já que a previsão é de que, além de 600 mil torcedores estrangeiros, 2 milhões de brasileiros transitem pelas doze sedes para acompanhar os jogos. A constatação é de que, com a atual estrutura, não há chance de o plano funcionar.